Crônicas e Críticas - Recordações da velha águia
 
 
 
RECORDAÇÕES DA VELHA ÁGUIA

 

 
 
Diz você com admiração e, como todo jovem que se encanta com uma descoberta, que  as Águias vivem quarenta anos. Neste tempo, sentindo-se frágeis, recolhem-se a um rochedo bem alto onde fazem sua renovação. Batem o bico gasto nas pedras rudes até descascá-lo. Com este bico novo,  arrancam suas velhas unhas, já tão sem serventia, e as vê renascerem fortes.
A partir dessa renovação passam a ter uma nova vida, sendo felizes até setenta anos. Com a conquista de  seu vigor renovado,  vêem  recuperada sua dignidade.. 
 
Você me trouxe lembranças de quando, já tendo vencido os 40 anos, já tendo arrancado o bico com pancadas dolorosas nos paredões da vida e com o mesmo bico arrancado as velhas unhas, rotas e quebradiças,  eu tentei ressurgir.
 
Foi um tempo bom! Foi um tempo de sonhos e esperanças. Foi um tempo em que conheceu um bicho peludo que a entendeu e junto com uma anta amarela, muito carinho deram  a velha Águia. E ela, cheia de confiança em sua ressurreição, acreditou que tinha valido a pena tamanha dor e tão grande esperança e ousadia mesmo.
 
Foi um tempo em que ela se viu redimida de todo o tormento do passado em que muitas vezes quebrou unhas, perdeu penas e rachou o bico na busca de alimento, que lhe desse força, para chegar aos 40 anos com a alma inteira.
 
Ela chegou! Sentiu que valera a pena submeter-se a todo o ritual. Valeu descobrir o que tinha lhe dado força, para chegar até ali. E soube que foi a esperança, a crença de que havia , em algum lugar, uma resposta para sua longa caminhada. Teve a ilusão de que havia chegado ao fim a sua busca.
 
Regozijou-se ao ver que sua persistência tinha lhe devolvido a esperança de ser feliz. E ela deleitou-se com sua descoberta e entregou-se aquele encontro como o ápice de sua busca. Ao seu redor tudo era, como é sempre em todos os lugares, em todos os tempos. Com nova força, não desistiu de lançar-se em mais ousados vôos, como que descobrindo novas belezas que antes não notara. Acreditou  que tudo que encontrou de especial, era a soma de suas esperanças realizadas.
E, assim embalada, pôs-se a voar com a roupagem nova da ressurreição. Mas esqueceu-se de que sua busca tinha sido por um longo tempo e os restantes 30 anos já tinham  passando celeremente. Correu em busca do prazer do sentimento maior que lhe justificasse o queimar-se durante uma ilusão, naquele sol inclemente, em cima daquela alta montanha onde deixou os restos de seu velho bico e suas unhas gastas.
 
Não contava que já era tão tarde!!!!   
 
Escorregou num terreno cheio de tropeços que outrora venceria com facilidade e numa queda quebrou uma das asas. Sentiu então que era tarde para retomar o tempo. Sabia que já não teria oportunidade de recompô-la, como acreditou. Já não poderia voar tão alto como lhe contaram que poderia.
Deixou-se arrastar pelos terrenos baixos, contentando-se com migalhas que seu bico novo podia pegar e suas garras seguravam, com firmeza, e transformou-se numa sobrevivente.
 
Hoje se perde no meio de tantas palavras ôcas, fáceis de falar e não mais se esconde dos sentimentos doloridos. Perde-se no meio de medos, de ressentimentos, de maus pensamentos. Sabe que já não há mais tempo para retornar a vôos corajosos nem esperanças de dias cheios de luz. Não mais verá o mundo, lá dos píncaros dos rochedos ou do meio da ventania que embalava as nuvens, levando-a como pluma.
Como foi bom, aquele tempo em que ela brincava com um bicho peludo, com uma anta amarela e falava sem medo, de seus sentimentos, de suas dores, de seus ciúmes infantis, de seu espírito renascido!!!
 
Onde tudo? onde a distância? onde a ingênua crença de que bastava amar? Não há mais tempo para um vôo de vitória. O tempo urge e já está ficando muito curto o que lhe resta de direito. E o Tempo não para, obedece  a Lei do Universo.
As Águias também morrem, mesmo que seja aos poucos...e elas também costumam, como todo ser vivo, perder a visão e a audição. Têm que procurar um ninho rasteiro e ali esperarem o destino que não tem hora marcada.
 
Resta, à velha Phoenix, uma nova fogueira onde se deixará queimar, por mais um século. Quem sabe, no arder deste fogo, ela vislumbre algo mais sólido do que palavras repetidas, por todo o sempre, para todas as águias e alguns animais que também desejam aprender a voar? Muitos estão satisfeitos com seus pés no chão e serão eternas gaivotas comendo os restos de peixe que sobram nas redes.
 
Como são felizes as gaivotas!!! Elas não sonham!!!!
 
 
                                   
 
 
 
 
Maria Augusta Christo de Gouvêa
 
by neusa - agosto/2002
 
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