Crônicas e Críticas - Camélia - a flor do ar
 
 
 
CAMÉLIA - A FLOR DO AR
Vinha caminhando pela Nove,  pela frente da Recreativa, de costas para a Visconde, olhando para a Álvares Cabral. Ultrapassando a frente principal do prédio, passei ao lado do muro que  é acompanhado por um pequeno canteiro.
 
Agora não é bem a estação das flores pois não gostam do frio. Mas flores sempre existem,  inclusive algumas que gostam do frio. Vejam só,  subindo a Visconde, além da Nove,  as flores roxas de um  ipê combinam bem com o azul do céu de junho que alguém me disse ter sido colorido por Cèzane.
 
Se há flores na Visconde, flores existirão na Nove, mesmo nesse friozinho mequetrefe de início de junho. Olho para o canteiro que acompanha o muro da Recreativa e lá está uma surpreendente camélia. Na Nove há pés floridos de camélias.
 
A camélia pede frio e introspecção. Branca como a dama que tomou o seu nome emprestado. Sem perfume. A camélia é uma flor branca, muito branca, sem perfume, mas de extraordinária beleza e de insuperável delicadeza.
 
Sou tentado a arrancar a flor e levar para casa. Afinal, a sua timidez é tão grande que pouca gente percebe a sua presença. A sua ausência não será pressentida. Mas, não vou arrancar a flor. A minha casa se estende também pelas calçadas da avenida. Fique ali.  Levanto os olhos para o poente. O sol vai despencando para os lados da Vila Virgínia. Vênus vem surgindo sobre uma lua minguante ou crescente porém magérrima como a dama tísica que na minha memória suspira e definha com os seus pulmões tomados pela tuberculose. A dama das camélias.
 
O poente não liga para as dores. As suas cores são caleidoscópicas. Aqui vermelho que vai ao rosa. Ali o azul que segue para o cobalto. Lá no alto uma mistura do vermelho com o azul, e o rosa com o cobalto, numa confusão de nuanças, nada definidas, que se interpenetram no cair da noite para o espanto dos olhos. Quais olhos,  pergunto eu ?
 
Talvez os olhos brancos da camélia efêmera que não tem tempo a perder, na sua curta vida, que aproveita para fitar o crepúsculo com  a emoção da criança adormecida que levamos no peito. A camélia  deposita na sua memória   o branco da flor e as cores do céu como se fossem a sua única e inesgotável riqueza. Sim a lua. Agora me lembro, o cancioneiro diz que a lua é a camélia que flutua no ar olhando a outra que surge do inacessível chão. Que pena ! Nunca tenho nas mãos a máquina para fotografar o que vejo. Lamento. Tenho apenas letras descoloridas para pintar a paisagem que vai sendo engolida pelo manto da  noite lenta.               
Sérgio Roxo da Fonseca
 
by neusa - julho/2002
 
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