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Ela anda pela
casa com o jeito mais despreocupado do mundo.
Cabelo
castanho quase ondulado na manhã de uma
lembrança.
Pegando a
torrada besuntada de geléia diet com a
pontinha dos dedos, acha que está mais gorda
do que queria estar, como toda mulher. É
linda em sua imperfeição. O camisão
gigantesco é secular e faz questão de não
esconder nenhum furinho feito pelo tempo.
Desbotado, é provavelmente uma das coisas que
mais guarda o seu cheiro matinal totalmente
viciante.
O beijo
morto, dado ainda nos lençóis, vem entre um
sussurro ainda ininteligível
de que a preguiça era maior que ela e os
cabelos desgrenhados pela noite.
Nenhuma
mulher acorda parecendo que está num anúncio
de margarina,
mas qualquer propaganda perderia em
naturalidade para seus miados.
Ela tem
manias e defeitos como todo ser vivo e adora
me tascar um beijo
mesmo antes de escovar os dentes.
É uma dessas
mulheres mágicas em sua simplicidade.
À luz da
manhã de um domingo qualquer, lendo seu
jornalzinho, pergunta algo que sabe que não
sei só para poder fazer graça de mim. Fica
feliz quando me ensina uma palavra nova,
cantarola uma música que nunca tocou no
radio, mas que só ela sabe de cor. Tem
calcinhas chiques para ocasiões especiais,
cheias de rendas como troféus para quem a
despe.
Ela sabe onde
comprar aquela cinta liga alucinante que faz
qualquer homem babar, e certamente tem, pelo
menos, uma guardada da forma mais
despreocupada possível na gaveta que você nunca abre.
Reclama da
minha barba mal feita que, às vezes, roça em
sua nuca ou em suas coxas.
Adora quando
falo do seu umbigo ou quando peço para ela
parar de me morder porque marca.
Vive falando
mal da celulite que imagina estar invadindo
seu corpo.
É lasciva o
suficiente para conseguir tudo que quer com
uma chantagenzinha emocional barata. Me chama
por um apelido que só ela usa e fala
sarcasticamente mal de qualquer coisa que eu
escreva só pra depois pular no meu colo
dizendo que era brincadeira. Deixa a gola
quase esgarçada do camisão para me mostrar o
ombro e, quando salta pra pegar mais café, me
diz cinicamente que é para parar de olhar pra
sua bunda.
A mulher da
calcinha de algodão branco. Como tantas
outras calcinhas que contam histórias secando
nas torneiras do chuveiro.
As calcinhas
comuns, sem ocasiões especiais, sem desculpas
por não serem sempre novas e lindas.
A mulher que
reclama quando como algo que ela odeia, a
mulher que aperta meu pneuzinho perguntando de
quem são aquelas carnes.
Existem
poucas cenas mais completas do que assistir ao
sono dela em sua calcinha branca de algodão.
Acho que a calcinha me fascina justamente pela
sua idéia de cumplicidade.
De sempre
estar ali. Pendurada no banheiro, dobradinha
em cima da cama esperando sumir numa interminável
gaveta ou andando pela casa antes de se
esconder dentro de uma calça numa terça-feira.
Essa mulher é a que no elevador me puxa com o
olhar mais tarado do mundo e, segundos antes
da porta abrir, me pergunta como está o
decote.
A mulher da
calcinha de algodão anda por aí, todos os
dias, desapercebida em sua simplicidade,
fingindo uma timidez educada que esconde seu
senso de humor debochado e sua vontade eterna
em me ver bebendo vinho nas curvas de suas
costas enquanto compromissos esperam.
Ela é uma
mulher, como tantas outras, incomparável.
Mesmo quando
a gravidade inevitavelmente ganha suas
batalhas e o tempo a lembre nas aulas de ginástica
que ela não tem mais 17 anos. E daí se as
pernas forem mais finas do que ela sempre quis
que fossem? E daí se seu pé não apareceria
em outdoors de sandálias?
Sei que ela
sempre vai elogiar as magrelas que trabalham
como cabides ambulantes para os grandes nomes
da moda.
Sei que ela
sempre vai dizer que eu preferiria ver a
Gisele Bundchen de biquíni numa revista do
que tê-la ao meu lado. E essa é uma das
coisas boas dela.
Eu sei de um
monte de coisas e ainda não me cansei disso.
A mulher da
calcinha de algodão sempre vai ter algo
inteligente ou debochado para dizer, sempre
vai reclamar que eu deveria dirigir com mais
calma e fazer pouco das outras mulheres que
foram menos que ela na minha vida. Esta mulher
fica menstruada e reclama disso, sempre fala
que fica inchada e se acha um barangão quando
está de mau humor.
Esta mulher
é falível e real. Além de ser apaixonada
por mim deve andar por aí olhando
discretamente pra outros homens (sem nunca
fazer nada), pode certamente comentar de meus
defeitinhos para suas amigas ou ainda sonhar
em ir a uma praia sem areia, que se amontoa
dentro do seu velho biquíni. Ela vive, toma
decisões erradas e ostenta outros milhões de
defeitos.
Todos eles
apaixonantes, porque vêm de alguém real e não
de uma boneca de cera sem personalidade que
muito homem queria ter para mostrar pros
amigos.“.
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