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Havia uma
velha árvore no jardim da velha casa, da
velha senhora.
Viveram
juntas muitas estações e à sombra dessa
amiga a senhora sonhou seus mais belos sonhos,
viveu seus
juvenis romances e muitas vezes chorou.
A companheira que também já fora jovem,
despejara sobre a cabeça da menina, depois
jovem e hoje uma velha senhora, suas flores
durante muitas primaveras, se desfolhara em
muitos outonos dourando o chão
esquecendo
invernos de esperas.
Juntas
dividiram seus momentos mais importantes ao
longo do tempo. Compartilharam emoções,
flores e frutos e misturaram suas lágrimas em
tempo de sofrer. Sabiam muito uma da outra
e se
compreendiam num mundo só delas. Os pássaros
de todo o céu sempre ali pousavam e, cantando
as embalavam. Ouviam suas confidências
trocadas em tardes de devaneio. A cada estação
voltavam, faziam seus ninhos e à sombra das
folhas amigas cantavam seus cantos de amor.
E assim a
velha senhora e a velha árvore, sempre
juntas, viam o tempo passar e menos pássaros
a cantar.
Como o tronco
da árvore foi sendo marcado por intempéries,
adquirindo majestosa aspereza que contavam uma
história de vida, também o rosto da menina
que tornou-se uma bela jovem e,
com o tempo, uma velha senhora, trazia
em sua pele fina, marcas onde risos e lágrimas
desenharam delicados arabescos. Os cabelos
brilhantes que a árvore cobrira de flores de
primavera e folhas douradas de outono já não
eram os mesmos. Passara do colorido da
mocidade para a imaculada brancura que o tempo
tornara em cintilante coroa.
E a velha
senhora, sempre junto à companheira, usufruía
de momentos de intimidade, compartilhando seus
amores e suas dores, fossem ventos violentos,
brisa suave ou chuva refrescante, vivia seu
outono. As chuvas, se lhes dava presentes dos
céus também deixavam-nas separadas porém
nunca distantes na sua perfeita comunhão.
Seus corações vibravam na mesma sintonia,
mesmo tendo entre elas um prosaico vidro de
uma janela.
Assim os anos
se sucedendo, a vida acontecendo e cada uma
florescendo, dando frutos e enfeitando o mundo
com suas vidas, viram chegar o tempo em que
ficaram sós naquele jardim deserto da mansão
vazia e cheia de silêncios. Vozes que
voltavam em ecos do ontem ecoavam pelas
paredes gélidas, antecâmara de um túmulo.
Muitas vezes
se perguntavam qual das duas partiria
primeiro, se a velha arvore, abatida pela
ventania, com seus fracos e desnudos galhos ou
a velha senhora com suas trôpegas pernas e
sua vista cansada.
Os pássaros
ali já quase não pousavam
e os ouvidos da velha senhora já não
ouviam muitas vozes ao seu redor.
Uma tarde, a
velha senhora, sentada junto `a amiga de
tantos viveres compartilhados, em silêncio
meditava. Não precisavam se falar tanto se
conheciam. Suas saudades eram idênticas e
seus sonhares tornaram-se tímidos. Perderam o
vigor sabendo porém que qualquer que fosse o
destino de cada uma delas a outra estaria
presente e, pouco esperando, ainda sonhavam utópicos
sonhos.
Voando um vôo
jovem cheio de confiança, exibindo o brilho
de sua plumagem luminosa, cansado de um longo
vôo para suas frágeis asas de pássaro
menino, ali pousou um curió deixando que seu
canto inundasse aquele jardim deserto onde
havia apenas uma velha árvore e uma sonolenta
senhora.
Como milagre
a velha árvore balançou seus ressequidos
galhos onde poucas folhas teimavam em viver últimos
verdores e
com desenvoltura inesperada, a velha
senhora aprumou suas costas cansadas apurando
seus ouvidos e surpresas deixaram aquela voz
de milagre envolvê-las, penetrando-lhes todos
os sentidos. De seus corações às suas peles
enrugadas renderam graças à tão inesperada
surpresa.
O jovem curió,
ignorando o que acontecia tão perto dele e o
milagre que produzira, ficou mais uns
instantes planejando vôos mais longos.
Sacudindo sua mocidade, com suas plumas eriçadas,
partiu deixando nas duas amigas um alo de ilusão.
A vida não
mudara tanto! Ainda havia um jovem curió para
trazer-lhes sopros de vida, cantos de esperança.
Quem sabe um dia ele voltaria?
Você conhece
algum curió que canta em velhas árvores,
para velhas senhoras em jardins vazios e
cheios de silêncios?
Conte esta
história para ele, quem sabe um dia
ele cantará para nós?
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