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Casamento,
ligação perfeita, combinação, encaixe.
Esta é uma noção que tenho de um casamento.
Quando alguém
me diz que vai casar é por ter encontrado um
outro ser que se encaixa perfeitamente nos
pedaços que nos não preenchemos devidamente.
Mas será que é isto que acontece nos
casamentos?
Outro dia
recebi num e-mail uma descrição simplista
sobre o amor no casamento, que dizia mais ou
menos assim: O amor começa com um sonho e
acaba com um velho careca e uma mulher gorda.
Uma pena,
nossa sociedade esta numa neurose do físico
que chega a preocupar. O que realmente acho
interessante é que enquanto os atos mostram a
verdade desta premissa não ocorre o mesmo na
verbalização. Os poemas continuam a chegar,
amores maravilhosos, mas colocados só em
palavras. Recebo verdadeiras pérolas em
poesias de mulheres gordas, velhas, magras ou
novas e na maioria das vezes pessoas que se
colocaram solitárias ou foram abandonadas
talvez exatamente por este motivo, os corpos
que não conseguiram fazer o impossível -
manter o frescor da juventude -. Curiosamente,
quanto mais poemas são feitos ou enviados,
mais solitária se sente a pessoa.
Se sabemos
que vamos ficar velhos por que casar pela
juventude? Assim como na gravidez, onde a
mulher ganha mais hormônios, seus lábios
ficam mais vermelhos, seu cheiro mais potente,
no envelhecimento a mulher perde o frescor da
pele, em troca, ganha o frescor da compreensão,
da amizade. Não digo aquelas que recorrem as
mais diversas plásticas na intenção de se
manter jovem (coisa que nunca da certo, a não
ser para o bolso dos médicos). A melhor fase
do "casamento" é encontrada aí. É
nesta etapa onde vamos aprender sobre o amor,
a dedicação, mas infelizmente é nesta fase
que começam as disputas e a procura por uma coisa mais excitante. Medo do
envelhecimento?
Hoje mesmo,
recebi de uma mulher de 52 anos uma série de
frases onde coloca o homem abaixo de zero. Por
que? Pergunto eu. Se sua verbalização é
sempre de solidão, se acompanha uma procissão
de encontros de salas, jantares intermináveis
e sempre buscando uma companhia (segundo ela,
masculina). Ora, como deve se sentir esta moça
que se arruma, se aperta dentro de calças ou
vestidos, silicones, máscaras perfumadas,
mirabolando frases prontas pela cabeça
quando chegar o momento de encontrar aquele
homem , seja lá quem for - se for alguém
novo então... - homem este que ela já
colocou como um nada?
Será que
exatamente por esta postura não encontra
aquele parceiro ideal?
Casamento...
Na concepção da palavra, será que casamos
mesmo?
Acompanhei
alguns casamentos, até o meu (por acaso eu
estava lá) e notei que em muitos casamentos
os casais estão casando com seus próprios
sonhos de realidade. Colocam no outro toda a
expectativa de uma vida à dois. Cada um
cumprirá o seu papel na vida de casado. Uma
falha e lá vem a cobrança.
Vejo um ou
outro homem ser elogiado pela esposa quando,
por exemplo, ele acorda à noite para trocar a
fralda do filho, lava a louça ou acompanha a
esposa nas voltas a toa pelos shoppings. Ela não
percebe, mas o esta elogiando porque dentro de
sua cabeça, dentro das regras casamenteiras
isto não é papel do homem o que na realidade
é, afinal casaram para enfrentar as
dificuldades junto com o auxílio mútuo.
Quanto aos
homens quais são os elogios que escuto com
mais freqüência: Minha mulher é honesta,
trabalha pra caramba, não abre a boca,
basicamente como se ela fosse um robot.
Contudo, as preocupações de ambos sempre estão
ligadas a fidelidade. No que, para o homem,
trair é transar e para a mulher é pensar em
outra...
Se posso
construir um termo o casamento não se faz no
ato do sim, mas durante toda a vida vamos
"casamentando" ou seja, casamos a
cada dia, a cada diferença, a cada briga, a
cada paz. O ato de casar é a cada vez
ocuparmos com o outro aquilo que nos falta ou
que não temos a capacidade de ter
solitariamente e isto irá acontecer por toda
a nossa vida. Se não soubermos administrar as
incapacidades do outro ficaremos fadados a
passar o resto da vida a passar e-mails de
amores maravilhosos, mas que nunca sairão do
papel para uma vida real e sadia.
Concordo que
o amor acaba, ou melhor, se redireciona quando
não é correspondido como queremos que ele
seja. Mas fica uma pergunta. Será que não
estaremos sendo exigentes demais? Será que
nos estamos valorizando demais?
Bem lá no
fundo só nós sabemos nossas razões.
Razão...
outra coisa estranha, porque será que sempre
precisamos da razão? Será que vocês já
repararam que a briga pela razão sempre deixa
duas pessoas solitárias? E muitas vezes um
terceiro (fruto não da união, mas da transa
enquanto brincavam de casamento) que perde o
rumo e leva por muito tempo a dor
desta separação. Vocês sabiam que os
filhos se sentem culpados da separação dos
pais e acabam com um sentimento de rejeição
para o resto da vida? E pior, calados.
O escárnio
de um casal que pensa em se separar e não tem
coragem chega as raias do ridículo, da
maldade, da insensibilidade. Cada qual desfaz
do outro no ponto em que o outro é mais sensível...
Os dois se tornam oponentes mortais, mas o que
querem assassinar e a moral, o caráter do
outro e entre ironias e pseudo brincadeiras vão
administrando uma dose letal de veneno na alma
um do outro. Nesta altura este casal se tiver
filhos, sem perceber estarão dizendo para o
filho que nem um dos dois prestam. Que ele é
fruto de duas pessoas más, insensíveis,
perversas e egoístas.
Casamento..
Será que nós casamos mesmo ou pagamos com a
vida a necessidade de uma companhia?
Se me alongar
mais vai virar um livro. Deixo para o
pensamento ou os dedos de vocês, se quiserem
pensar nisto, colocar suas idéias ou experiências,
logicamente não as suas, mas aquelas que
ouviram falar ou da vizinha.
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