Crônicas e Críticas - O cão cérbero
 
 
 
O CÃO CÉRBERO

 

 
O jornal "A Folha de S. Paulo" ano passado publicou o trabalho de um jornalista norte-americano que analisou o tratamento dispensado pela mídia aos escândalos que atingiram os governos Clinton e Bush.
 
 
Clinton sofreu duas grandes acusações que se referiam à conduta de sua esposa num negócio imobiliário e o seu envolvimento com a estagiária Mônica Levinsky. Houve investigação no Congresso e até mesmo foi indicado um Promotor de Justiça para acusá-lo. Concluiu-se que o ilícito não era jurídico, mas moral. Clinton foi obrigado a pedir desculpas públicas. A imprensa crucificou sua família.
 
 
Bush está sendo acusado de ter vendido ações da empresa que dirigia antes que a mesma anunciasse seus prejuízos. A operação rendeu lucros a Bush em prejuízo dos incautos que compraram suas ações. Não houve investigação no Congresso. Não foi designado Promotor de Justiça para acusá-lo. Bush não será levado a escusar-se perante o público. A mídia lhe dispensa um confortável tratamento.
 
 
O jornalista norte-americano afirma que o cenário lembra a novela "Silver Blase" de Sherlock Holmes. Diz ele para o perplexo dr. Watson que a chave do mistério está no cão da casa. Watson duvida dizendo que não acreditava nisso porque o cão não havia latido na noite do crime. Sherlock vitorioso sentencia que nisso residia o mistério: se o cão não latiu é porque conhecia o criminoso
 
 
A novela foi inspirada na mitologia grega. Aqueles antigos e inesquecíveis relatos confirmam que o cão que toma conta da porta do inferno tem três cabeças, chama-se Cérbero e é tão bravo que nunca ninguém escapou de lá, menos duas pessoas. Hércules que o amedrontou com sua força e Orfeu que o encantou com a sua música.
 
 
Cérbero latiu para Clinton impedindo sua fuga do inferno. Mas devotou um respeitoso silêncio ao ver Bush que assim escapou dos reinos das trevas. Cérbero ou teve medo da força hercúlea de Bush ou gostou muito da sua adocicada música.
 
 
Não é diferente o que se passa com a atual campanha brasileira. O tratamento diferenciado que o sistema dispensa aos candidatos à presidência da República autoriza concluir que Cérbero late para uns, mas fica em silêncio ao ver outros escaparem do inferno ou porque tem medo de sua força ou porque aprecia o som de sua música.
 
 
 
Autor: Sérgio Roxo da Fonseca
artigo escrito em 2002 por ocasião da campanha eleitora brasileira
 
 
by neusa - fevereiro/2003
 
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