Cronicas - Considerações sobre vida a dois
 
 
 
CONSIDERAÇÕES SOBRE VIDA A DOIS
ou 
em reflexões e confidências entre duas amigas

 

 
 
Tu sabes que é muito difícil viver juntos; para manter uma relação há que se ter um jogo de cintura muito grande....e essas fases de desencantamento quase sempre acontecem, é o maldito confronto com as expectativas irreais do casamento.
Isto aprendi: que para viver mais ou menos bem, uma vida a dois, temos que reduzir muito o nível de expectativas. É quando vemos as diferenças entre a imagem que construímos deles e seus lados sombrios e cotidianos (essas coisas do dia a dia que vão nos deixando putas da vida). Por isso sentimos vontade de sumir, de ir embora para sempre, tomar uma atitude que mude para sempre nossa vida (seria, digamos, um insight). E sei que tem horas que se não pararmos para pensar, somos capazes de qualquer coisa, sofremos, castigamo-nos mutuamente e aí descobrimos que não podemos garantir a felicidade de ninguém, nem a nossa...Estamos sempre aprendendo num processo de ensaio e erro.
 
Estou lendo um romance que a personagem diz: :" Na nossa vida, no nosso relacionamento é assim, vamos casando e descasando muitas vezes nem que seja com o mesmo homem."
 
Olha, minha querida amiga, vivemos num mundo muito distante desta poesia, deste sonho que queremos. Nossos dias se prolongam em cotidianos que nos impedem de ver que há coisas muito maiores, coisas que passam por nós e nem percebemos, por causa da droga da rotina...e persistimos nesse cotidiano porque não há outro jeito...mas nós, querida Neu, somos mulheres que sonhamos, fantasiamos e temos a poesia e com isso avançamos muito além desse nosso tempo e nos descobrimos...e assim essa nossa rotina vai sendo quebrada...As vezes são só sonhos, mas sonhos fazem bem à alma, não é?
 
Como bem diz Martha Medeiros em uma de suas mais bonitas crônicas: "sem a música, sem os filmes, sem a fantasia, sem a poesia, seríamos solitários patológicos. A arte é o que conecta as almas."
Então, minha amiga, o jeito é esquecer tudo isso, hoje, agora, e encontrar um jeito de conciliar as emoções com a razão, porque a vida é assim e temos que vivê-la, não tem jeito.
 
Na verdade nem sempre sabemos o que sentimos, há uma série de emoções que correm paralelas ao pensamento. Pensamos e agimos, na maioria das vezes, só com o coração...e aí é que está o perigo. Não vale a pena ficar pra baixo...temos ainda, acredito, muitos caminhos, muitas escolhas, e pouco tempo para vivermos tudo...chegamos num ponto em que é preciso superar o que já fomos, essas crises, essas fases sombrias, para que seja possível refazer e reinventar. ..sim, acho que precisamos reinventar nossa vida, um reencantamento como dizem...olha é sempre mais cômodo acolher as afirmações que consolam ou ouvir o que já foi dito...com essas certezas construiremos pouco mais que o tédio...por isso, talvez, eu sonho e canto e choro quando sinto tédio, quando me sinto sozinha...por isso prefiro a dúvida sempre, mil vezes a dúvida...
 
Sabemos bem o que nos desagrada, o que nos revolta e o que não pode permanecer, e estamos cansadas de sermos tolerantes, boazinhas, mas sermos tolerantes exige uma distância muito grande de nossas certezas, uma certa inclinação pela ironia diante de nossas tantas limitações. Limitações que só nos permitem sonhar.. e isso me lembra uma frase de Carl Jung (psiquiatra com grandes conhecimentos de filosofia), que trabalhei esta semana com as alunas: " aquele que olha para fora sonha enquanto aquele que olha para dentro, acorda."
Sabe de uma coisa: na verdade queremos sonhar acordadas, mas isso, eles, nossos maridos, nunca vão entender...também não precisam entender, não é?
 
Autora: Cibele Menini
 
 

 

 
by neusa - agosto/2003 - dois anos de neupoesias
 
 
 
 
 
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