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Conversava com um amigo.
__Sabe Marisa, vou para o
Rio no carnaval. Necessito acompanhar um alemão,
de uma grande indústria. É necessário fazer
as honras de brasileiro para o estrangeiro.
Negócios pedem esta troca de gentilezas. Eu
preferia ficar no meu sitio descansando, mas
é preciso e vou. Muito importante para minha
firma. A despesa será grande, sabe
como é, um carnaval no Rio.
Fiquei meditando...
Quanto valeria um carnaval no Rio? Hotel cinco
estrelas, camarote no sambódromo... Nem
arrisquei um palpite, tão longe de minha
realidade de professora aposentada. Apesar dos
meus trinta anos dedicados à educação,penso
que para assistir a um carnaval no Rio
teria que juntar o ordenado de alguns
anos. Bem, pelo menos resta-me a dignidade e a
consciência de haver auxiliado em alguma
coisa, o meu país.
Ele
continua...
__
Quando
voltar, irei para Argentina e de lá para
Austrália, U$11.000, a passagem na classe
executiva, uma parada menina, porém preciso
ir, há expectativa de muitos bons negócios e
não tem como recusar.. Eu estou ficando
velho...(48 anos) por isso em viagens grandes
preciso da classe mais confortável.
Recordei-me de quando eu
atravessava há alguns meses, uma dificuldade
financeira e ele aconselhou:
__Dispense a
empregada, você pode fazer todo o serviço
sozinha...
__Não
suporto amigo,
o apartamento é grande e estou ficando velha,
minha coluna não me permite certos excessos e
também não me sobraria tempo para o projeto
da alfabetização...
__Imagine,
retrucou , você ainda é muito moça , agüenta
sim.
Voltando à
nossa conversa de agora ele asseverou:
___Quando
voltar da Austrália, irei a Paris e depois à
Holanda. Aí a passagem fica mais em conta
U$3.000 bem mais barata.
Que bom respondi entusiasmada...
Arrisquei um
pedido
__Meu amigo,
disse com voz mais suave, na tentativa de
comovê-lo, embora soubesse que isso ia ser
dificil em se tratando de dinheiro . Vou lhe
fazer um pedido. A acompanhante de minha mãe está em muita dificuldade. Sua
casa oferece perigo de deslize numa parte. Precisa também fazer a calçada
da rua. A prefeitura deu prazo e ela está
muito preocupada. A filha engravidou, o marido
está desempregado. Gostaria de ajudá-la pois
ela cuida com tanto carinho e paciência de
mamãe. Por vezes levanta
quatro a cinco vezes por noite e ajuda
a minha velhinha como se fosse mãe dela .
Nada tenho de meu, do ordenado nada sobra...
mas quem sabe você lhe adiante este dinheiro.
Ela fêz o orçamento, ficaria em R$4.000,
reais, não
dólares asseverei sorrindo e poderá pagar
R$500,00 por mês. Em alguns meses terá seu
dinheiro de volta.
__ Tudo
isso?! mas é muito dinheiro!..., falou com
voz já alterada, eu não tenho, estou
querendo construir no sítio, ademais a vida
está difícil, é muito dinheiro. Esta
historia não é bem assim, a prefeitura..., não
sei não, tem coisa mal contada aí.
Agradeci
encabulada e conversamos por mais algum tempo
e despedi-me.
Voltei para
casa em Guarujá , isto se deu em São Paulo.
Vinha
dirigindo pela nova Rodovia dos Imigrantes.
Obra prima do homem, os túneis, a iluminação,
o chão de concreto. Quanta segurança...
quanto trabalho, demonstrando de quanto o
homem é capaz para o seu conforto. A lua
clareando a serra tornava-a mágica naqueles
tons iluminados. Tudo era um clima de
harmoniosa paz...
Feliz e
confortada pela aragem fresca beijando meu
rosto, estaria plena se não fosse aquela
frase ressoando em minha mente.
__É muito
dinheiro!!!
Pensando nisto adormeci.
Sonhei que
estava cantando com uma amiga de voz lindíssima,
mensagens de paz e esperança a quantos nos
ouviam.
Ao acordar
sentí-me invadir por uma imensa força e
alegria.
Os problemas
apareceram. O piso do terraço do apartamento
estourando com o calor excessivo, as contas
aumentando, no entanto aquela energia
maravilhosa tomava conta de meim. Eu haveria
de vencer.
Levantei-me e
após a prece de agradecimento abracei a vida
guardando meu tesouro a paz e força de
vontade.
Nada será
muito se possuirmos boa vontade.
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