Crônicas e Críticas - Acabou-se o que era doce
 
 
 
ACABOU-SE O QUE ERA DOCE

 

 
 
Ontem precisei de uma pessoa equilibrada, sensata, inteligente, romântica, amorosa, que se alegra com o nascer de uma manhã de sol, que se enternece com o sorriso de criança, que se aquieta ao ouvir uma canção de amor, que ri ao se sentir querida, que se encanta com a beleza de um botão de rosa. Uma pessoa enfim, carente de afetividades.
 
Fosse homem ou mulher, mas que tivesse o desprendimento de se dizer romântica, sem medo de ser feliz. Sem receio do tempo vivido.
 
Se mulher, que tivesse a coragem de dizer que ama seu homem, faz dele seu ídolo, quase um Deus, que a ele se submete ao respeito, na certeza de ver nascer dele o respeito que ela merece como mulher.
 
Se homem, que tivesse coragem de mostrar os olhos molhados e confessar que chorou por amor. E mais, que fosse realmente homem para falar do respeito pela mulher que ama. Que a admira quando está em pé e a deseja quando com ele se deita, como se fosse a única na face da terra e ela pudesse sentir a verdade em suas palavras, pelo ritmo gostosamente acelerado do seu coração apaixonado.
 
Passei o dia atrás de alguém que lamentasse a falta de romantismo que existe entre os jovens de hoje, porque suas festas são cheias de barulho, sexo, bebidas e drogas.
 
Ontem corri atrás de uma pessoa que soubesse cantar uma canção romântica feita para os amantes, procurei o sorriso daquela jovem que se encantou ao receber do namorado um botão de rosas e um cartão sem versos decorados e repetidos, apenas com três palavras “Eu te amo”.
 
A você este meu depoimento parece um lamento de alguém vencido pelo tempo e eu respondo que não choro pelo meu tempo que passou, porque é meu também o tempo presente, mas pelo pouco do romantismo que no tempo que é hoje ficou.
 
Tudo mudou e isso é normal. Anormal é a triste constatação de que nada que era bom ficou, principalmente o romantismo, o mais requintado ingrediente da personalidade humana, porque é com ele que se escreve as estórias de amor. Resumindo eu diria que os românticos de ontem amavam, os brutos de hoje “ficam”. Por isso este meu lamento, porque tive a oportunidade de experimentar a emoção do “amar” e me senti um verdadeiro animal quando me propus a “ficar”. Quero voltar a ser o que já fui e me nego a continuar sendo o que hoje sou.
 
Ontem abri as gavetas procurando meus guardados, revirei tudo e não encontrei nada. Queria tanto reler o bilhetinho que Otilia me mandou dizendo que tinha encontrado seu primeiro namorado e que ele era eu. Lembro-me de ter guardado no meio de um livro as pétalas de uma rosa que ela colheu no jardim da pracinha onde as escondidas nos encontrávamos. Mas o tempo passou, o livro rasgou, as pétalas secaram, o jardim morreu, a pracinha sumiu, e Otilia, minha namorada o tempo levou pra longe e nem endereço deixou. Maldito progresso que não respeita meu passado, para construir o futuro.
 
Inutilmente procurei  meu primeiro terno que solenemente usei para receber o diploma de grupo. Não estava mais lá. Não existe mais nada do tempo que eu era feliz e não sabia e para meu desencanto e pranto imediato, nem o guarda roupa existia.
 
As pessoas mudam meus guardados de lugar e não me avisam e eu perdido estou.
 
Ontem caminhei pelas ruas escuras que ilustram meus sonhos. Nos postes de poucos fios, lâmpadas pálidas, que eram acesas pelo homem que todo final de tarde cumpria aquele solene ritual. Um por um, percorria todos os postes da minha rua, para dar um pouco de brilho nas noites escuras e as vezes sem lua. Queria encontrar um pouco de mim que por lá deixei.
 
Procurei por Sá Firmina, a preta velha que nem forças mais tinha para cumprir sua caminhada diária em busca das migalhas que recebia de porta em porta.
 
Sá Firmina não caminha mais, Sá Firmina não pede mais, Sá Firmina assim como meus sonhos, minhas fantasias, não vivem mais. Acabou-se o que era doce.
 
 
 
 
 
Domingos Leoni
Jornalista e escritor
enviada por Mari - PR
 
 
by neusa - outubro/2002
 
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