Crônicas e Críticas - Domingo
 
 
 
DOMINGO

 

 
  
     Amolando facas sobre uma pedra, no rotineiro trabalho da cozinha, lembrei-me de um fato do interior, que de triste chega a ser  engraçado.
      Meu avô, um coronel às antigas, possuía quarteirões de casa na minha cidade. Em uma delas, nós morávamos.
     Eram casas grandes,ensolaradas, no centro de terrenos maiores ainda, cheios de árvores frutíferas, onde vivíamos , ora empoleiradas, ora brincando de casinha de bonecas  embaixo delas, ora brincando de circo, fazendo daqueles galhos  o trapézio.
     Mamãe, criava galinhas caipiras. Aliás, galinhas de granja, são algo novo, bem recente mesmo, nos interiores.
E um frango caipira tem um sabor inigualável. Esse prato tão mineiro, ou um saboroso lombo de porco com tutu e torresmo eram a grande ansiedade do domingo! Pratos especiais!
     Na sexta-feira, nós crianças, já éramos incumbidas de pegar a ave que seria sacrificada para o nosso deleite..coitada.
     Para nós tudo era festa...agora, na hora de cortar o pescoço da ave, e colher o sangue que minha mãezinha adora para molho pardo....era uma luta. Ficávamos com pena, chorávamos com pena do bichinho e o frango sentindo essa comiseração, não morria. Debatia-se, debatia-se e não morria. E mamãe corria conosco dali ! Vão brincar, dizia! Vão brincar! Chega a hora do almoço e o frango não morre...
     Vocês estão vendo....será que começou aí a idéia da antropofagia? Não, acho que não, essa idéia começou mesmo no dia em que Adão não resistiu à beleza de Eva.
     Bem. Eu e minhas digressões! Deixa pra lá...
     Sexta-feira! Nós, as meninas da Ilce, correndo pelo quintal atrás do frango especial, ele nos escapando, penas pra todo lado...uma canseira só....Imaginem, nós branquinhas demais, bem vermelhas com o sol de Minas Gerais, gritando, rindo, correndo pelo quintal a pegar o frango  que seria preparado!
      Ah! Vocês querem saber o porque da faca amolada? Sim, no domingo, parece que tudo acontecia de novo. No amolar da faca para cortar o pescoço do frango que já estava preso desde sexta-feira, as galinhas ficavam assanhadas, desesperadas , correndo pra lá e pra cá, cocoricando achando que também seriam eliminadas...
     Hoje, quando me vejo aqui ao micro , me sentindo solitária, me achando velha, muitas vezes comendo comidas prontas, de onde nem se sabe a origem,me dá uma saudade de voltar no tempo. Tempo de tanta  energia, alegria, brincadeira e...facas amoladas.
     Tenham todos um lindo domingo, um eterno domingo de lembranças de saudades do tempo que passou!
 
 
 
Autora: Margaret Pelicano
 
 
by neusa - fevereiro/2003
 
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