|
Desde
que nasci até uma certa idade jovial, antes
de sair de casa para cair nas plagas do mundão
sem porteira, respirávamos música em nosso
lar, na periférica, descalça e cor-de-rosa
Rua 24 de Outubro da Estância Boêmia de
Itararé. Meu pai tinha programa na Rádio
Clube de Itararé, criou e ensaiou conjuntos
regionais, cantou, tocou e compôs (quando
morreu deixou doze instrumentos), contava que
ainda na sua mocidade fizera instrumentos e
montara orquestra nos longes do Paraná, e
nossa vida rotineira e cotidiana era musical
(meu nome mesmo comporta duas notas musicais,
a segunda no plural), e minha parte feminina
da família toda cantava e muito bem, sendo
que Clarice, a estrela maior, era (e continua
sendo) a mais bela voz, a mais afinada, a da
mais encantadora harmonia sem igual.
Meu
pai, ouvindo rádio com estática e tudo - e
isso nos anos 60 em Itararé era um programação
- dizia aqui ali, de cantores e cantoras, de
canções e improvisos com jazz, quer pelas
letras caprichadas, pelas músicas especiais,
pelos arranjos geniais, pelas características
peculiares de timbres e tons.
Com
isso vim treinando o ouvido extremamente
musical, meus poemas por atacado ganharam
ritmo próprio, acabei por fazer o Hino ao
Itarareense (é oficial em Itararé), meu pai
"viajou fora do combinado", é nome
da Rua Maestro Antenor Corrêa Leite, e eu, no
frigir dos ovos todos que sempre viram
omeletes estrelados, fui baldeado de mala e
cuia para Sampa.
Lembro-me,
no entanto, que quando ouvia Elis Regina abrir
o peito, meu velho genitor ficava meio que
encantado.
E
sempre saía um elogio, porque Elis Regina
cantava balada como se uma baladeira, rock
como uma roqueira, samba como uma sambista,
ora soltava a possante voz, ora a segurava com
delicadeza, se preciso tremulava num final
aqui e ai, se preciso suspirava e mostrava um
improvisado falsete ou tom gutural, depois,
como se uma lâmina de luz e menta espiritual
dava o decoro de seu verbo cantar mais pleno e
elevava aos céus a sua voz fora de série,
magnífica.
E
meu pai dizia que todos quando cantam louvam a
Deus, que tudo na natureza louva ao Criador, e
a celestial Elis Regina foi a que maior O
louvou, como louvam o vento, a chuva, as marés,
os pássaros, as tardes de chuvas e os cântaros
eternais que entre cavalos selvagens galopam
as tempestades de areia ou maremotos
dantescos.
Corria
o ano de setenta, eu já era um migrante em
Sampa, e li num jornal sobre a ASSIM, Associação
de Intérpretes e Músicos que então se
fundaria em Sampa, e cuja primeira reunião
seria no Teatro Ruth Escobar, na Rua dos
Ingleses, no Bixiga. Como compositor inédito
e estudante de direito, lá fui sondar a
acontecência num dia que caiu uma pancada de
chuva pra valer.
Conheci
o Ivan Lins que recomeçava, tendo tirado a
barba e perdido aquele inicial timbre rouco
que o consagrou nos festival universitários.
Na reunião estavam o Jangada, a Rita Lee, a
Marilia Medalha e outros nomes que me fogem
agora, no afogadilho da doce memória
revisitada.
Na
minha, tímido como uma anta com vírus,
carregava no bolso direito da japona a fitinha
com algumas canções de minha modesta
autoria, cantadas por mim mesmo e sob o
acompanhamento básico de um violonista colega
paroara da Pensão da Dona Nena (de Fartura-SP)
que ficava na Rua Prates, no Bom Retiro, em
frente à cheirosa empresa de Café
Tiradentes.
No
meio da ágape, eis que surge uma loura
baixinha, cabelos encaracolados quase
amarelos, falou uma série de palavrões e deu
uma gostosa gargalhada.
-A
Elis chegou, disse um. Meu coração disparou
um bonde.
Ela
então tirou o baita óculos, a peruca de
falsa loura e se revelou inteirinha.
Todos
se chegaram, cumprimentamos a Elis, logo rolou
o papo, enfim, foi fundada a bendita associação
da qual me tornei só ali (nunca mais tive
qualquer comunicado a respeito) uma espécie
de sócio-fundador, a Elis pediu-me a caneta
Bic azul emprestada, assinou, papearam todos e
eu, por incrível que pareça, um capiau de
tudo, literalmente PERDI A FALA.
Aliás,
dias depois, no Jornal da Tarde, Marilia
Medalha dizia que iria gravar autores
conhecidos mesmo, porque não achara nenhum
compositor novo com canções inéditas para
gravar seu long play previsto. Fiquei uma
arara, claro.
De
lá pra cá sofri, dancei, voltei a estudar,
até que dia fiquei chocado ao ver nas
manchetes de jornais que Elis morrera, ou
melhor, que "morreram" com a Elis.
Foi um baque. Nem fui trabalhar naquele dia
vestido de luto e tristeza para sempre.
Emocionado e fora de mim, escrevi um poema
chamado Travessia de Elis, que depois
musiquei, e de vez em quando ainda canto,
imitando-a, porque sempre fui bom nisso.
Passaram-se
os anos, me casei, minha esposa musa descobriu
o meu acervo literário inédito, milhares de
poemas, rascunhos de idéias, registros e canções,
quando resolveu me inscrever num concurso de
poesia promovido por uma biblioteca lados da
zona centroeste da cidade.
Fui
premiado nesse concurso pela primeira vez na
vida, com o poema Travessia de Elis.
Hoje
canto a letra, faço pose e panca, como se uma
homenagem à gaúcha Pimentinha, a maior
cantora de todos os tempos do Brasil.
Ela
é a nossa "Pelé" da voz. Milton
Nascimento, aliás, disse que, se Deus
cantasse, teria a voz de Elis. Assino embaixo.
De
lá pra cá, nesses vinte e um anos sem uma
Elis presencial, surgiram novas cantoras,
outros estilos, outros timbres, e nunca houve
e nunca haverá uma outra Elis Regina. Ela é
um mito. Uma lenda da MPB. Ainda é muito cara
e inesquecível para Ivan Lins, Milton
Nascimento e Belchior que nasceram a partir da
bondade dela em gravá-los, estreantes e
desconhecidos que eram.
Pelos
citados estreantes vocês já imaginam a
Estrela-guia maior.
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
Pois
ainda nesses 21 anos continuo inédito,
multipliquei canções, blues e baladas, e
quando me lembro de Elis Regina fico encantado
também, a exemplo de meu pai. Custei a me
acostumar com a perda dela.
A
cada vez que após a terrível perda a ouvia,
dava um tranco no meu sensorial. Mexia com
minhas estruturas de foro íntimo.
Hoje
os filhotes dela estão pelaí, dando um show,
até a expectativa do que se nos virá com a
graciosa Maria Rita.
A
popular revista Seleções agora está
promovendo uma caixa com cindo CDs dela, de
trabalhos imemoráveis a inéditos, com
interpretações, claro, fora de série.
Contatado pelo malote virtual de venda via
internet, de presto reservei o meu em parcelas
honestas, porque um documento de Elis Regina
dessa natureza vale o acervo.
Vinte
e um anos, e parece que foi ontem. Quando vejo
gravações dela na TV Cultura fico cada vez
mais assombrado. Um espetáculo. Dou-me comigo
outra vez, ensimesmado, sentidor, alma
alumbrada...
Quando
cantou Atrás da Porta (Chico Buarque),
arrasou, e uma perolágrima caiu de seu rosto
lindo, testemunhando talento e emoção.
Quando
ganhou os festivais da Record, nas gravações
da emissora de novo recentemente veiculada,
era uma Elis jovial e serelepe, dando ânimo
ao exercício de libertação com sua voz de
estrela-pássaro.
Vinte
anos se foram, claro, estamos como arroz
quirera de terceira. O Brasil mudou, um metalúrgico
está light lá - ela iria adorar! - mas ainda
temos ex-presidentes corruptos e ladrões
soltos, ex-governadores corruptos e ladrões
soltos, ex-ministros, senadores, deputados e
prefeitos corruptos e ladrões soltos.
E
nunca haverá uma outra Elis Regina.
Se
estivesse viva em carne e osso, estaria
metendo a boca na corja que até então se
revezou no poder, máfias e quadrilhas com rótulos
novos, de modernismos falsos e neoliberalismos
espúrios até globalizações amorais e
inumanas. Continuaria perseguida?.
E
pondo o dedo nas feridas sociais. Daria voz a
novos compositores, o que as atuais musas não
fazem, havendo apenas uma perspectiva de que
Gal Costa deverá gravar esse ano o seu novo
CD só com compositores inéditos. É sonhar e
crer.
Enquanto
isso, ouvindo na encardida picape o meu velho
long-play onde ela interpreta só MILTOM
NASCIMENTO, fico fulo da vida que ela tenha
morrido, se bem que, cá para comigo, mataram
Elis e um dia isso vai aparecer, para surpresa
geral.
Enquanto
isso também, me comovo quando Elis solta a
voz no rádio de MPB que ouço, cantando Casa
no campo, Ou Arrastão, ou Madalena, ou Como
Nossos Pais.
Um
país com uma voz dessa, tem que se fazer
ouvir no palco iluminado do mundo todo.
Elis
Regina será uma eterna saudade, mas como os
Beatles ou Mozart, ou Beethoven, ou Garrincha,
ou Charles Chaplin, nunca morrerá. Estará
sempre ali, à mão, á nossa disposição
emotiva.
Quando
cansarmos de ouvir a mesmice brega da Nova Música
Popular Brasileira que não é nova, não é música,
não é popular, não é brasileira, sacamos
de nosso baú de espíritos a
voz-mantra-blues-banzo de Elis Regina, e
poremos para rodar uma canção de amor e luz
que fará milagre em nosotros cansados desses
tempos tenebrosos de muito ouro e pouco pão.
-Garçom,
traga mais um chope preto e bote essa moedinha
na máquina. Coloque para rodar Travessia,
cantada por Elis Regina, a maior, a melhor...
(O
garçom colocou a moeda e ao voltar com o
espumoso chope preto com colarinho, deve ter
notado que eu andei chorando de saudades.)
|
|