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Se
alguém conhecer, por favor me apresente. A
pessoa que procuro não existe nem em fábula.
Procuro alguém que realmente consiga deixar
uma gaveta organizada, seja ela de cômoda ou
mesmo de um criado-mudo. Gavetas foram feitas
para guardar cacarecos e velhas tranqueiras,
que você um dia julga útil, mas depois de
colocadas lá dentro,
só volta a vê-las quando cria coragem
de arrumar a bagunça.
Numa
gaveta tem de tudo. Velhos cadernos, jornais
do século passado, foto da primeira namorada,
um brasão de um time de futebol polonês.
Certo dia, num desses chiliques de arrumar o
quarto, achei na minha velha gaveta o boletim
da primeira série. Com assinatura da Tia
Gertrudes. Tive que guardar, afinal
a Tia Gertrudes me ensinou a ler.
Coloquei em outra gaveta.
O
ato de arrumar uma gaveta é sempre em vão. O
que deve ser jogado no lixo acaba ficando e o
que realmente presta, se é que alguma coisa
colocada em gaveta presta, acaba indo pro
lixo. Joguei fora minha coleção de CDs de
Jazz porque na gaveta de meu criado mudo só
tinha espaço para uma antiga coleção de maços
de cigarro. Acabei fumando os cigarros todos
para colocar a coleção de tampinhas de
frasco de detergente.
Pela
gaveta de uma pessoa se faz uma verdadeira
biografia. Os objetos denunciam detalhes que
nem a própria mãe do sujeito conhece. Um
amigo meu guardava luvas de seda numa das
gavetas da casa. Daquelas luvas delicadas que
as madames usam nos filmes antigos. O que ele
fazia com aquilo eu não sei, mas é motivo de
desconfiança.
Quando
se perde alguma coisa como as chaves do carro,
maço de cigarros, isqueiro e documentos, os
primeiros lugares a serem vasculhados são as
gavetas. Mas nunca se encontra nada daquilo
que realmente precisa. O pior é que
geralmente estes objetos estão lá,
escondidos. Acho que as gavetas tem
compartimentos secretos que escondem nossas
coisas quando ela é fechada
A
gaveta demonstra a arte da bagunça moderna.
Quem tem gaveta pode se considerar um pós
moderno, um futurista nato.
O futuro da humanidade está na bagunça
de cada gaveta existente na face da terra.
Creio eu que num futuro próximo os Homens
habitarão enormes gavetas, como na antigüidade
se fazia uso das cavernas. As gaveta grandes
terão repartições como nas casas atuais se
tem os cômodos. Serão pequenas gavetas
chamadas de quarto, cozinha, banheiro, sala e
copa. Teremos as gavetas de empregada, as
gavetas de visita, as gavetas de estar e as de
jantar.
Os
bairros serão chamados arquivos e as cidades
de armários. Seremos o mundo das gavetas. O século
XX tem provas concretas de que haverá uma
transição. Um século de guerras onde a
humanidade se desencontra a cada década. Décadas
perdidas que nunca serão encontradas, pois
sua documentação histórica foi abandonada
em velhas gavetas empoeiradas. Uma história
jogada as traças, perdida como um isqueiro
sem fluido na velha gaveta de cuecas. Esse
desencontro humano vai se dar quando o último
homem se encontrar fechado em sua gaveta
particular. E quando o homem for engavetado
por vontade própria, estará perdido. Nunca
mais será visto. Assim como qualquer objeto
de uso pessoal que um dia foi deixado numa
gaveta.
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