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ERRO
MÉDICO
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Foi acordado
de forma brusca, mal conciliara o sono. Por
instantes não sabia bem onde estava, mas
aquele cubículo abafado, com um colchão de
plástico azul, sem lençol de forrar, nem
travesseiro, logo o fizeram lembrar-se do terrível
plantão que estava acontecendo. Há tempos não
havia paz. Nem podia recordar da última vez
que dormira mais de 2 horas sem alguma
interrupção.
Não paravam
de chegar vítimas e algozes, com toda sorte
(coisa irônica) de ferimentos e moléstias.
Interessante
é que nunca que se acostuma à dor.
Levanta-se
com o desejo de que não seja nada, talvez só
uma prescrição de calmante... foi-se o
tempo...
É, sem dúvida,
mais um esfaqueado de alguma esquina, ou um
baleado de não se sabe onde. Pior é quando
eles vêm aos montes, em tragédias de maiores
proporções.
- Onde está
o acadêmico, pôxa! O cara só atrapalha o
dia todo e à noite some! Ninguém deveria
ficar doente à noite...
Seus
pensamentos vagavam em cascata, oscilando
entre o mundo dos sonhos e a dura realidade.
Hummm...
barriga suspeita, dolorosa, distendida... aí
tem coisa.
- Há quanto
tempo sem eliminar gases?
- Gases,
doutor?
- Sim, gases,
senhora... punzinho...
A terna
senhora, que não esconde a face da dor e da
idade, lança-lhe um sorriso ruborizado e
abaixa os olhos castos, informando não
lembrar. Em sua cabecinha leiga ainda soa a
frase: - e quem vai prestar atenção a que
horas solta os ventos?
Sobe a
paciente para o Centro Cirúrgico, infecção
da vesícula recheada de pedrinhas. Velha
rotina de escovação das mãos, uma piadinha
com o anestesista, para acordar os ânimos da
madrugada.
- Onde está
a instrumentadora? Quê? Não veio? E quem vai
passar e contar o material? Ah, sei... aquela
estagiária, a que nem sabe a diferença entre
uma pinça e uma tesoura. Sei... Bem, não dá
pra parar tudo agora, a paciente está crítica,
no melhor momento para o sucesso cirúrgico.
Nisso,
lembrou dos ensinamentos do seu chefe há 20
anos - nossa, como o tempo passou - ele já
aposentado, cuidando dos netos, e nosso
doutor, seu pupilo, agora chefe de serviço,
ainda se valendo desses 20 anos de bons
ensinamentos.
O sono foi
afastado, o diagnóstico estava, como sempre,
correto, baseado na técnica apurada e numa
teoria dos primeiros lugares em todos os
concursos e das inúmeras noites mergulhado em
livros e artigos de atualização.
Agora, pouco
mais de 40 anos, a visão já cansada, óculos
que embaçam com a máscara cirúrgica - podia
operar de olhos vendados.
Lá se foi a
vilã - uma vesícula biliar cheia de pedras e
pus - uma massa única de sangue, pus, tecido
friável, pedras e gaze.
Agora estava
tudo bem, tudo checado, nenhuma intercorrência,
cavidade limpa, apenas com o sangue
costumeiro. Pronto. Mais uma barriga fechada,
vida salva, dor resolvida. Família
satisfeita, sorridentes, cumprimentando o herói
cansado e sem lençol.
Bateu uma
fome, mas o refeitório já fechou doutor -
você sabe que só fica aberto até
meia-noite, comesse antes!
Acorda a
paciente, beija as mãos abençoadas que lhe
cuidaram do corpo e pisca para aqueles olhos
que lhe afagaram a alma. Está feliz. Estão
ambos felizes. Mais felizes ainda dois dias
depois, quando a doce senhora recebe alta do
hospital, andando e muito agradecida.
Foi mais um
plantão e ela nem soube que naquela madrugada
operara mais três.
E no dia
seguinte ainda atendera na enfermaria e depois
no ambulatório.
Pausa para um
banho - ah, só em casa, não dá tempo!
Casa. Ele
sorri ao lembrar daquele cheiro de paz e de
conforto. Sorri ao ver em seus pensamentos a
bela esposa e os filhos queridos. Queria tanto
abraçá-los agora... O que estarão fazendo?
Já tinha três dias que não os via. Queria
ir para casa, tomar banho, descansar, depois
fazer amor e dormir nos braços perfumados
dela.
A sirene de
outra ambulância o arranca dos braços
morenos. Mas não era mais ele de plantão.
Tanto fazia... estava ali mesmo... aproveitou
para percorrer as enfermarias, trocar alguns
sorrisos e curativos, escutar alguns
"causos" e lamentos, agradecer
alguns elogios e olhares ternos, retribuir
tanto afeto.
Finalmente em
casa! Onde foram todos? Ah, é verdade,
trabalho, escola...
Uma carta
sobre a mesa chamou-lhe a atenção, algo como
uma intimação. Já estava a caminho do
banho, quando a curiosidade e uma estranha
agonia intuitiva o trouxeram de volta à mesa
de jantar.
Era mesmo uma
intimação seca e lacônica - erro médico!
Um frio
percorreu-lhe a espinha, um desconforto...
Tanto cansaço, tanta privação...
Erro médico?
Erro? Quando houve erro? Quando ele aceitou o
emprego, foi aí? Ah, mas não é fácil abrir
mão de emprego público quando se tem bocas a
alimentar. Sim, hospital precário, ele sabia,
falta material, instrumentadora, auxiliar,
fios adequados, mas muito se faz de bom,
muitas vidas são salvas. Falta lençol, falta
algodão, falta comida, mas sobra carinho e
dedicação.
E vem um
papel qualquer falar de erro médico? E os
acertos médicos? E as renúncias? E o estudo,
estágios, congressos, ausências, falta de
lazer, de boa alimentação, remuneração
condizente, e as cenas roubadas dos filhos
crescendo? E as faltas às festinhas, os
Natais ali, ao lado dos pacientes, enquanto a
família lamenta sua ausência... os inúmeros
plantões de Ano Novo, onde se brinda em copo
de plástico com um pouco de Coca-cola e uma
dentada num sanduíche esquecido no Centro Cirúrgico.
Erro médico!
E quem julga
isso? Um advogado, que nem faz idéia do que
seja uma barriga infectada, sangrando, onde
mal se identifica os pedaços dos órgãos em
meio ao sangue e pus, por incisões pequenas,
cujas mãos do cirurgião passam apertadas,
para deixar uma pequena cicatriz nas senhoras
vaidosas.
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Nisso o nó
da garganta rompe num choro infantil, ao ler o
nome do autor da ação (ele sabia o nome de
todos os pacientes): era uma senhora, dessas
sorridentes e agradecidas, de olhar maternal e
cúmplice, cuja vida havia salvo numa dessas
madrugadas sem lençol e sem instrumentadora,
onde uma pequena gaze escondeu uma brilhante
carreira de dedicação, esforços e privações.
Não
suportava sentir-se assim. Pena de si mesmo
era uma situação desconfortável e
arrependimento não era a melhor palavra. Como
se arrepender de escolher servir e aliviar? Não,
isso não estava acontecendo, deveria ser equívoco,
erro de pessoa, isso sim!
Onde ficavam
todas aquelas noites em dormir, todas as
festas que perdeu, todos os dentinhos que não
viu romper, todos os gozos que nunca
experimentou?
Onde o
conforto, a fortuna, o retorno?
Ah, esse
cansaço...
O escudo começava
a cair, o elmo a pesar, a lança a envergar. O
guerreiro fora atingido pelas costas.
Covardemente alvejado, no coração, no altruísmo,
nos sacrifícios, na fé nos homens e na ciência,
talvez em Deus.
Entendeu que
agora seria uma outra batalha, em outro campo,
território inimigo, desconhecido,
desprotegido, apenas armado de seu caráter,
seu passado irretocável, seu amor
incondicional e, talvez, de alguns sorrisos e
olhares agradecidos, que agora perdiam
parcialmente o brilho, ofuscados pelo cintilar
do ouro, das moedas, da ambição e do
desamor.
Foi para o
banho tentar lavar a angústia e a profunda
solidão que sentia.
Lavou o rosto
com sabonete e lágrimas, enxugou a dor do
coração e já ia deitar, esperando o abraço
carinhoso dos filhos e o conforto doce e
perfumado da esposa, quando o celular o
avisava que deveria cobrir a falta de um
colega, que acabara de sofrer um infarto e
estava internado na Unidade Coronária do
hospital, brigando para continuar vivo.
Levantou-se,
vestiu a velha roupa branca e foi, sem nem
olhar para o papel traiçoeiro.
Erro médico...
o colega cometeu esse erro... erro médico...
Não viver
mais a vida havia sido certamente seu maior
erro médico.
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Autora:
Lílian Maial
Rio,
24.07.01
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Livro
de visitas
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