Cronicas - Porque estudamos
 
 
 
PORQUE ESTUDAMOS

 

 
Por que estudar? Vamos morrer mesmo. Tem tanta gente burrinha da silva que é cheia da grana. Tem tanta gente que mal sabe garatujar o próprio nome e tem tantas posses e influências no status quo. Tem tanto artista gaiato e manequim brega que mal fala "a gente fumo..." e sai na Caras ou rebola no Gugu, quando não, alguma Maria Chuteira que casa com um inocente Vampeta da vida, depois vai no Programa do Ratinho pedir DNA e exigir pensão? Por que estudar, afinal?
 
 
Meu pai dizia, na sua santa sabedoria caseira que me fez muito melhor do que tantos ditames de academias e enciclopédias: Da Vida só levamos, o Amor e o Conhecimento. Depois, falando sério, ninguém fica muito rico depressa impunemente, já dizia o Mestre-Mor Millôr Fernandes...
 
 
Por que Estudar? Para nos treinarmos nas sabedorias dos milhares de livros, executarmos a tal teoria versus praxis e, assim, com a nossa bagagem, o nosso meio, o nosso modus vivendi, nos lapidarmos e, é claro, também nos habilitarmos profissionalmente, abrindo escadas para o alto e alguma necessária evolução social que também abrigue o próprio clã...
 
 
Não nascemos analfabetos? Pois é. Aprendemos no meio - Freud disse que somos realmente tudo o que daí temos e somamos - depois trocamos figurinhas com os colegas de infância, os amigos e inimigos do meio, os parentes bons e ruins, até os que são serpentes, daí temos os chamados Referenciais, observando, aprendendo sempre com erros de terceiros, avaliando atitudes e comportamentos, medindo vivências, pragmatismos e as posturas de nosso bairro, nossa cidade, nosso mundão sem porteira....
 
 
Tudo é mesmo um eterno e santo aprendizado. A Escola é apenas um regrado espaço de conhecimento que tem normas, aonde teremos direitos & deveres, e aonde convivemos com o diferente de nós, com os livros clássicos, com mensagens às vezes seculares com o Mito da Caverna de Platão, ou as bússolas e velas de grandes navegadores aventureiros, além dos interessantes e curiosos riscos da história de vencedores e vencidos, as conquistas da matemática, a evolução da ciência, a descoberta de gelo em Marte, o poder da imprensa (Quarto Poder) tudo isso numa soma - os meios de comunicação formam cabeças pensantes (ou buchas de canhão da mídia) - e assim, cidadãos, esclarecidos, civilizados, conscientes, vamo-nos a crescer com diplomas, cursos, avaliações, concursos, progressos, leituras (jornais todo santo dia), daí sim, ganhando mais, sendo promovidos, reconhecidos em nosso meio profissional, a partir de então finalmente colhendo lucros & frutos, conquistas, sucesso, felicidade, mas, sempre, ESTUDANDO.
 
 
A vida é um exercício de libertação pelo Estudo. A revisitada imagem do pai. A pedagogia magistral do exemplo de nossa angélica mãe. Aquele artista, aquele jogador, aquele político, aquele repórter, aquele jornalista, todos, afinal, têm uma vida inteira para contar, como eu que fiz a minha própria vida pelas minhas próprias mãos e pés, baseado na famosa canção My Way, pois fiz o meu caminho, a minha estrada, do meu jeito, com sangue, suor e lágrimas. E, claro, com tantos estudos, cursos, currículo, um rato de sebo, um amante de jornais. Adoro ler e escrever. Em suma: Estudar!
 
 
Brinco com meus queridos alunos-filhos, que agradecido beijo todo santo dia meu calo no dedo de tanto escrever, pois foi ele que me deu tudo o que tenho. E há ainda o "calo" de tanto ler (a vista cada vez mais fraca), mais os cabelos ralos de tanto "pensar" o "LER" e finalmente, com isso, ter opinião própria, sacando lances e momentos, procurando ser esclarecido, ser politizado, ter consciência do que eventualmente nos dopa a mídia atrelada, nos veicula o meio nem tanto ético como deveria, mas que nos açoda o ânimo exaltado numa violência banal, numa inversão de valores, num consumismo hipócrita, numa invasão infame, num ataque de hitlerismo quando um ou outro se valora por intermédio da força bélica, do poder da grana, da arma louca, quando sou - como também o era nos gloriosos Anos 60 - um poeta do Amor e Flor, do Amor e Paz, ou seja, um consciente ser humano sem fronteira, que também como poeta, parafraseando Drumond, carrega o mundo nas costas...
 
 
Estudamos para saber falar direito. Para não ficar com a turma abobada discutindo novela, Big Brother (credo), Gugu, Faustão, Hebe, João Kleber, Sérgio Malandro, Mion, ou a vida sexual de um e outro famoso de ocasião. Estudamos para avaliar a imprensa, o presidente, o síndico, o vigia-noturno, o patrão, o educador, a sociedade, a justiça tão injusta e conivente com o chamado Quinto Poder, a violência banalizada. Somos reféns da mídia ou estudamos para avaliar melhor o que cai sobre nós todo santo dia, com um monte de informações, algumas querendo fazer nossas cabeças (muitas já lavadas)? Sim, devemos pensar reações educadas, tomar atitudes dignas, berrar pelos cotovelos, pelo menos quando necessário e nos dizer respeito, delatar, criticar, dar codinome aos bois...
 
 
Sim, baby, estudamos para não ser usados. Estudamos para refletir. Estudamos para ter um eixo norteador, "sentidor", criativo. Estudamos para tornar fácil o difícil. Estudamos para termos ferramentas hábeis e podermos então realizar os nossos impossíveis sonhos pessoais, a nossa Lenda. Estudamos para sabermos melhor perdoar o irmão imprudente. Estudamos para sentirmos o valor dos pais vividos. Estudamos para ter como auferir o tamanho da amizade ou compreender o pontapé inicial do amor. Estudamos para não sermos coiós e nem fazermos parte da chamada Banda dos Contentes...
 
 
Estudamos por isso. Todos são iguais. Eu estudo muito porque quero ser muito. E sei, então, depois de bem inteirado numa visão apurada de 360 graus, que nem todos são iguais. Uns são mais iguais que os outros, como diz aquela balada meio rock. Qual a diferença, cara pálida? Estude e verás... Há um Deus. E há os que pensam...
 
 
Eu estudo tudo de tudo. Adoro ler de gibis a almanaques, de jornais a revistas, de livros a enciclopédias, de dicionários a livretos de causos, da Bíblia a Platão, do gibi velho do Tex a poemas de Neruda. Da magna Constituição à bula de remédio genérico. Dos olhos de minha musa inspiradora ao prelúdio de Itararé. Acreditam nisso?.
 
 
Uma vez perguntaram por que eu estudava tanto, e eu, grosso modo, mas de imediato e na bucha, sendo verdadeiro e direto, respondi que estudava para não ser burro. Meu finado pai, à beira do Rio Itararé, me vendo sempre com um livrinho, um caderninho, uma revistinha na mão, um jornal amelado, me achando um precoce entojado a ter posturas e cobrar coisas, reclamava que eu lia muito, escrevia muito, falava muito. E eu sentindo que deveria mesmo viver intensamente e muito, brincava que ainda iria viver de falar e escrever. E ganhar dinheiro com isso. E vivo disso. Acredite, se quiser.
 
 
-Professor - Ai a pidoncha da Maria Cebola de novo! - por quê o sr tasca tanta matéria assim? Por que o sr não enrola um pouquinho, senta, descansa um pouco, ouve walk-man, chupa um drops? Por quê o sr tem direto esse faniquito de dar o conteúdo inteiro, explicar "da hora", passar questionário cabeludo, dar lição de casa? Nós adoramos o sr mas o sr dá muita coisa...
 
 
-Eu quero que você seja muito, Kharol. Esse é o melhor momento de sua vida inteira. Viva intensamente. Não passe em brancas nuvens pela vida. Aprenda a lição da difícil Viagem de EXITIR. Você precisa. Você tem talento, é viva, tem energia mal conduzida, tem origem humilde, tem necessidade de ser gente, brilhar, não para morrer de fome ou frustrada. E depois, filhinha, seus pais pagam impostos, por tabela, eu sou a empregada doméstica deles, tentando fazer você crescer, evoluir, produzir conhecimento.
 
 
-...Assim, como você "colar" significa de certa forma um jeito triste de estar treinando para ser malandra, roubando seu amigo e montando seu teatro de absurdos, se eu por acaso enrolar as aulas vou estar roubando seus pais, o governo... E se eu não for correto, justo, como quero querer que o outro seja? Como posso cobrar dignidade? E depois, estou aqui passando um pouco do que eu sei, um pouco do que você vai precisar, te estendendo a mão, dizendo "Vamos, venha comigo para o futuro!". Você quer ir? Você vem? Ou você quer que eu mande um gentil recadinho pra sua mamãe me autorizar a, todo santo dia de pagamento, só vir receber o minguado holerite-cebola, não passar nada, não dar nada, não explicar nada, não ensinar nada, tornando você uma igual, uma comum, uma pessoa fácil de ser conduzida no redil dos infelizes?
 
 
-Confesse, querida Maria Cebola, confesse: na sua casa
alguém diz coma, apague a luz, desligue o rádio, entre, vá dormir, estude, leia, abaixe a televisão, tome o xarope, tome banho, corte as unhas, quem é a mandona em casa, a pessoa mais adorável, o anjo de sua vida, que se preocupa com você, que repara em você, que morre e brilha para que você seja vencedora? Pense nisso, filhinha... Aqui sou eu quem continua nessa mesma toleima...
 
 
-Pois é, Baby, depois de seus pais, acho que o Professor pode ser a pessoa mais importante em sua vida. Para quem precisa, só há três saídas: Estudar, Estudar, Estudar! A escola é um lugar sagrado como a sua casa ou a sua igreja. É uma escada para cima, um salto para o alto. Ou não. Depende de você. Qual é a sua opção? Você decide. Antes que seja tarde demais. A vida não dá outra chance. Essa dimensão, não tem retorno...
 
 
-...Todo grande homem da humanidade, teve um professor em seu caminho. Vocês serão os roqueiros, os deputados, os encanadores, os poetas, os desenhistas, os astronautas, os comerciantes, os vencedores do futuro. Ou não? Os catadores de latinha de cerveja? O que é que você vai fazer disso? De sua vida? De seu conhecimento? (Da vida só levamos o Amor, e o Conhecimento).
 
 
-Noooooossa, "Profe", o sr foi fundo agora, hein? -Claro, baby, adoro você e quero você brilhando um dia, dando orgulho pros seus pais, ajudando seus entes queridos carecidos, sempre meiga, ativa, brilhante, canalizando essa vontade, essa falácia, essa energia, pro seu bem, pro bem de seu país e de seu mundo... E tudo isso via Estudo, por intermédio da escola, desse lugar, desse estágio. Posso confiar?
 
 
-Professor, quando eu crescer, quero ser igualzinha ao sr. (Não desejo isso a ninguém). -Tá bom, Maria Cebola, faça o exercício. Qualquer dúvida, "Disque Silas", cobre, fale comigo. Os olhos dela tinham coisas brilhantes que numa metáfora ou neologismo eu diria que eram perolágrimas... Vai saber.
 
 
Tenho recebido cartas de ex-alunos e ex-alunas. Tem um monte de Silas André, Silas Cícero, Silas Maria, Silas Thiago, normalmente um Silas com um outro nome de santo. Como o meu que é grego e quer dizer Considerado, e que era um personagem bíblico parceiro de Paulo de Tarso, depois de cego e finalmente convertido.
 
 
Chego em casa com o senso do dever cumprido. É claro que, volta e meia, um problema, os pais são convocados. E muitas vezes ouvi: -Ele brigou com o sr, mas adora o sr. Diz que o sr fala a linguagem deles...
 
 
Ou, os pais se identificam comigo e sentem que sou, sem querer ou não, o olho vivo deles na filha ou no filho em sala de aula, fora do contexto do lar. E os filhos falam muito, discutem, cobram, mais exigem do que se doam, mais querem direitos do que fazem os devidos deveres. E eu estou ali cobrador, ombro amigo, referencial, amistoso, para brincar e exigir, para sentar com eles e produzir, formá-los. Não repeti-los, jamais.
 
 
Não sei se sou um bom professor, ou "Profe" como eles dizem. Mas tento torná-los cidadãos. E quero que escrevam bem. Cobro muito isso. Racionem, peço, didático. Reflitam, ensino, pondero. Escrevem, dou dicas. Dou bagagem. Dou noções. Dou exemplos. E tenho consciência do referencial que sou, que preciso ser, sempre com ética e visando uma visão plural-comunitária, num futuro humanismo de resultados. Às vezes acerto. Às vezes erro, claro. Sou formador de opiniões, mesmo quando canto um RAP meu, crítico. Não vou mudar o mundo. Mas, posso tentar? Eles são meus canteiros. Eu sou sou só mais um que eles terão pela frente, pelo caminho, na encruzilhada da vida.
 
 
Como na canção de Lennon, espero não estar só. E não estou só. Nunca estarei. E espero que eles não se percam pelo caminho. Mas, confesso, se sou um Sonhador, planto sonhos no coração deles. Ensino manejos. Técnicas, estilos, partilhas. Talvez alguma semente fique, dê frutos, valha a pena. Se valeu a pena, então Estudarão. E terão alguma coisa do que se orgulhar um dia. E dirão que tiveram um tiofessor que os alumiou, como se diz lá na Estância Boêmia de Itararé. Afinal, não somos todos Anchietas? Pois é.  
 
 
Autor: Prof. Silas Corrêa Leite
Texto da Série "Inventários e Partilhas, 
Prática Educacional Vivenciada
(livro inédito do autor)
 

 

 
by neusa - agosto/2003 - dois anos de neupoesias
 
 
 
 
 
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