|
Eu,
pessoalmente penso que seria impossível.
Vivemos numa
sociedade em que, na realidade, o que nos foi
ensinado em criança (e fazemos questão de
manter) foi mostrar nossa figura e nunca nós
mesmos. Os consultórios de terapeutas e
psiquiatras estão repletos de figuras
arranhadas, retorcidas ou destruídas para
serem consertadas, restauradas, re-arrumadas,
mas nós, vamos continuar a explicar nossas
vidas, vamos continuar a tentar construir
imagens de nós mesmos para que a sociedade
nos olhe como, vítimas, sábios, fortes,
varonis, misteriosos. Enquanto isso, perdido lá
no fundo da alma, estaremos nos escondendo de
tudo e de todos. As vezes até de nos mesmos.
Recebo alguns
textos de uma relevância fantástica. Muitas
auto-ajudas. Contudo, é tão repetitivo que
começo a descobrir que na realidade a vontade
mesmo é passar as palavras bem arrumadas. É
ter o reconhecimento de seus pares
internetianos de que seja bom escritor ou,
pelo menos, bom repassador.
Contudo, na
vida real, continuamos a gastar a vida
consertando nossas imagens.
Por que não
ser nos mesmos de uma vez? Penso que um ato
desses de tamanha bravura esta ainda muito
longe de nosso ideal de vida. Afinal, como
expor nossas falhas, nossas manias, erros, carências?
Se não
conseguimos ser nós mesmos fora de nosso
solitário travesseiro, só nos resta fingir.
Fingir para ser aceito pelo outro, que por sua
vez, também esta fingindo que aceita.
Esta postura
é tão forte que milhões de pessoas não
conseguem estar sozinhas. E lá vem uma
batelada de calmantes, tranqüilizantes,
antidepressivos que enriquecem os laboratórios
que os fabricam, mas que empobrecem cada vez
mais quem os toma. E faz uso pela simples razão
de não se agüentarem, de serem incapaz de
conviver com sua própria personalidade. Aí
fica uma pergunta: Se a própria pessoa não
se agüenta, como vai querer que outra a
suporte?
A convivência
social é esquisita mesmo. Se não fosse a máscara
de educação ou regras pré estabelecidas
jamais seríamos capaz de conviver como grupo
ou sociedade. A célula mater é a família e
eu não conheço uma família que não tenha
suas confusões ou que não esteja fingindo
para se manter “família”.
Esta forma de
estar na vida é tão arraigada dentro de
nossos valores que grandes pensadores foram
capazes de escrever frases como esta: Falar a
verdade é ser grosseiro.
O que resta
então? Usando um velho axioma muito popular
ainda hoje: “Dançar conforme a música”
A mesma coisa
acontece quando tomamos nossas posições nas
situações que nos aparecem.
Há poucos
dias recebi um e-mail que versava sobre sermos
nós mesmos sem medo. O texto era tão
contundente que fiquei emocionado em ler.
Respondi parabenizando a pessoa que me
repassou. A resposta de minha resposta veio
com tanta explicação que desisti de entender
porque tanta explicação.
Temos nossas
posições, mas somos tão inseguros que
precisamos dar explicações porque tomamos
aquela ou esta posição. E, se por acaso, você
não dá explicações passa a ser besta,
metido, grosso e algumas coisas mais pesadas
(coitada da minha mãe).
É muito
comum para mim quando quero uma coisa dizer:
Eu quero isto! Eu quero assim! Nu e cru.
Logo, logo
vem a pergunta: Quer assim porque?
Porque assim
eu quero! Respondo, daí pra frente a comunicação
fica terrível. Eu fui apenas eu mesmo e penso
que não preciso dar explicações porque
quero uma coisa, mas a cultura diz que isto
esta errado e nos fulmina com muitos adjetivos
nada educados. Sem perceber meus
interlocutores estão sendo eles mesmos.
Afinal para falar a verdade, só em último
caso e normalmente quando estão brigando.
Lá pelos
meus 27 anos tive uma namorada, muito legal.
Me tratava muito bem, mas eu não conseguia
gostar dela. Seus pais, meus amigos, faziam o
maior gosto em nosso casamento. Juro eu fazia
uma força enorme para gostar, mas me foi
impossível. Nada tenho contra ela e até hoje
somos amigos (talvez fingidos). Vendo que a
situação estava para ficar mais séria e que
o compromisso estava ficando cada vez mais
forte tomei a decisão de ser honesto e
realmente expor meu real sentimento: - Menina,
gosto de você como amiga ou até pelos seus
pais que considero muito, mas não amo você e
não quero ficar me enganando muito menos
enganando você. Depois de um minuto de silêncio
recebi um prato de panquecas de banana pela
cara, apesar de gostar das panquecas fui me
defendendo. Voaram copos, açucareiro até
cadeira. Aos gritos fui chamado de grosso, sem
coração e outras coisas mais.
Perdi a
amizade dos pais e dela por muitos anos. Para
ela eu não tinha o direito de não a amar!
Quase 20 anos
após o episódio, nos encontramos
no enterro de seu pai. Acreditem que
ela me perguntou por que eu não consegui amá-la.
Já preparado
respondi: Não sei, apenas não amava.
Ela colocou
numa coroa de flores e eu sai de mansinho.
Esperam de
nos coisas que muitas vezes somos incapazes. E
o pior é quando fazemos eco a estes anseios.
|
|