|
FLORIZA
|
Como
todo santo dia chegou em casa às 7 horas.
Perto da Voz do Brasil que a mulher ficava
escutando na cozinha. No debulhar do tempo
quirera, rainha do lar.
Naquele
dia não foi diferente o seu chegar pontual. A
não ser a ausência do cheiro do feijão-jalo
no ar; de geléia de baunilha ou mesmo compota
de pêssego. Tampouco o palavrório inútil
dos políticos.
Era
um não entender o favo do ali, havência.
Garrou da sala pra cozinha, visando
cumprimentar a mulher que amava tanto.
Descobriu-a, sentada à mesa negra, de vidro,
rosto sobre os longos braços alvos, molhados.
Chorava
copiosamente.
Acudiu
contristado. Água com açúcar cristal. Remos
pegando na contristada angustia do ver.
Perguntas ocas. Despreparo face ao inusitado.
Depois, amparo, candura. Abraço demorado.
Questão quase súplica. Querendo saber o
acontecido. Floriza não sabia um explicar.
Dera uma vontade de pôr para fora certo rio
ilhado no cárcere privado da engrenagem
interior, íntima. Tirá-lo (revelação) de
suas entranhas. E vindo junto uma tristeza
cega, desaprendida. Sem escolher motivos
transparentes. Apenas calha. Vísceras
expostas?
Os
filhos aportaram. Sobrinhos, netos, genros,
vizinhos. E curiosos afeiçoados. Todos
repletos de amor por aquela pessoa
maravilhosa. Bondosa e serviçal. "Boas
pedras " - como diziam os parentes
caipiras de Itararé , de onde ela era originária.
Sem
explicação. Elo que fosse. Chorava porque não
se pode conter a chuva interior que abre
sulcos num vir pesado. Não se detém a foz,
impedindo-a de despencar seu baque ou romper
abrupto. Nem a margem que oprime o rio, deixa
de fazê-lo um destilo algoz para qualquer
penhasco rude, ou inundações íntimas presas
no cais.
Psiquiatria,
psicólogos. Análises, exames. Calmantes,
viagens, apegos. Nada. Fragmentos e matizes do
inexplicável. O triste repetiu-se outras
vezes. Pedra-sabão. Nau frágil.
Jonas
começou a chegar mais cedo em casa. Cuidando
da cara metade que tanto adorava. E a patroa
sempre chorando pelos cantos. Ora perto da máquina
de costura. Ora perto do espremedor de frutas
ou do cuorador de roupas no fundo do quintal.
Sempre com anéis molhados no rosto. Jonas
pediu férias. Foi pra casa de campo com ela,
depois, perto do mar. Ficou mais doce do que
antes. Epiderme, placenta, abrigo, talismã .
Floriza,
choro e ranger de dentro.
Não
sabia mais o que fazer. Não havia mais o que
melhorar naquilo; ou para evitá-lo com
promessas ao sal, continuação. Dó maior.
Algema na alma de Jonas.
Voltou
a trabalhar.
Desacorçôo.
No
entanto largou a sardinhada com os
companheiros. O jogo com os amigos nas tardes
de sol madurando cores no cinzel da vila.
Nunca mais a conversa fiada com caipiras de
igual ciranda.
Fincou-se
mais caseiro. Pensando a mulher Floriza já
com meio século de vida a construir o amor
com ele. Filhos firmados. Relação sadia,
madura e agora aquele choramingar casulos;
ostras, entraves. Lua cheia saindo no
tardiscar da cidade grande. Feito coisa. Lua
cheia de encanto que vinha de Itararé, onde
conhecera a mulher prendada. Chegou em casa
esperançoso como sempre.
Nem
sinal da esposa.
Bulha
alguma. Oxigenou seixos no peito. Expectativa
quase câncer. Depois, hospitais, leprosários.
Instituto Médico Legal. Praças, viadutos.
Pensões, albergues noturnos. Rádio Amador,
jornais de bairros. Jornais do interior.
Televisão Horário nobre. Achados e Perdidos.
Cartazes em postes. Nada.
Floriza
nunca foi encontrada.
Nunca
foi achada para desespero de Jonas, que finou
mais que flor de abóbora quando um guri
fuzarqueiro arrebenta de vez o cipoal ao rés
do chão.
Família
unida, dinheiro em vão. Subterrâneos. Ferida
guardada de exposição o tempo não lixa. O
acontecido foi se envernizando pela vontade de
esquecer a dor. Não há sensações no
esquecimento.
Passaram-se
os anos. Jonas, de-primeiro com o coração em
pandareco. Depois, com a parentalha, tomo de
aceitação. Apesar das noites; do martírio
que há no pensar o havido.
Estava
começando a perder a querência na cicatriz
lazarenta de um alembrar-se incontrolável,
quando - de madrugada - ( dia desígnio) um
telefonema curto e grosso, nervoso, de Porto
Seguro, Bahia, Nordeste do Brasil.
Um
primo distante que ali passava, de supetão,
perto de um alojamento de obras, sem querer
esbarrou no ver o vulto daquela mendiga
conhecida, candonga. Desdentada, cabelos
grisalhos, com berebas. Será o impossível?
Onde já se viu? - Parecida. Era ela ! Deus do
céu ... - Floriza !
Foram
em busca.
Em
caravana. Amor, mãe, amiga, saudades,
quimeras, insofrências. Lembranças guardadas
no corote do peito revisitado. Emoções com
custo de atar-se. Pérola aos poucos...
Tenros
retalhos de sentir: Floriza voltou anjo,
companheira, farol. Seda.
Passaram-se
os anos .
Tanto
amor, ninguém acreditava. A família, com a
perda traumática e o enlace do vir, uniu-se
ainda mais. Quereres. Visitas. Livros, discos,
jóias. Rosas, carinhos ; luvas de pelica pro
fito do amor.
Jonas
viu a havência cair no carvão molhado do
esquecimento, remoçado e fel
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
iz que estava;
como araponga liberta do gume de si mesma. Nem
se alembrava mais dos detalhes do acontecido.
A mulher fizera um tratamento especial. Dera
um lustre. Banho de loja. Muletas? Próteses?
Um
dia, ao voltar da sauna com chocolate caseiro
comprado na bodega da esquina da rua Pássaros
& Flores, encontrou Floriza chorando. De
novo? Palco-íris. Corre, acode - filhos.
Montoeira de parentes. E ninguém conseguia
arrancar nada. Sem explicações. Solidão genética
na alma? Alma-albatroz.
Ela
mesma era pura no dizer o não sabido;
instante-trevas. Pediu perdão por aquilo que
fazia sem querer. E por fazer sofrer os entes
que amava tanto.
Clinica
de repouso: lá chorou também. Acupuntura,
homeopatia, ginástica, natureza; choro Não
havia nada que desse luz ao que estava
acontecendo no coração partido de Floriza.
Cuidaram
o mais que puderam. Vigílias, por turnos. Ela
continuava chorando. Acordava de madrugada,
despia-se, trancava-se no banheiro particular
e chorava horas a fio. Depois banhava-se e saía
fechada em si. De tromba ainda.
De-primeiro,
às escondidas. Depois, pelas penumbras da
casa movimentada em vigiados rodízios de
turnos. Com o tempo perdeu a vergonha de ser o
que era a sua essência. Passou a chorar em público.
Os soluços como que rasgavam-lhe o íntimo
transido. Dava dó.
Passaram
a chorar com Floriza. A casa toda chorava. As
alamedas, ciprestes, melros, álamos; pássaros
pretos no avesso do alpendre. Pétalas de
arame farpado do ser entregue. Não havia
filtros explicáveis. Parecia que o mundo
inteiro chorava, num desatino de nunca ninguém
poder explicar ou suportar feito aço.
Era
contagiante a contaminação terreal da
sensibilidade de Floriza. Com o passar dos
tempos , mal alguém dormia por perto e ela
sumia dessa dimensão. Ia num ermo qualquer
chorar . Decompor-se longe do real.
Um
dia anoiteceu e não amanheceu. Desta feita
deixou uma carta-testamento pedindo que não
mais a procurassem. Queria estar só como
sempre se sentira. Mesmo rodeada de um mundo
de pessoas, não se sentia digna de merecer
tanto afeto, verdadeiro ou não.
Era
sozinha; sempre sozinha no egoísmo contido do
seu Sentir. Não queria que a procurassem
mais. Seria uma andarilha, uma peregrina, uma
nômade, uma " trecheira " como
diziam os sociólogos puristas. Se tinha que
ser assim para não chorar mais, assim seria.
Tinha assumido ser só : solidária de si.
Capenga. Solidão-liturgia.
Pedia
respeito com sua dor; com sua estranha maneira
de ser. Tinha a sua íntima descoberta do
sentido real da existência. Mesmo sabendo que
por onde quer que fosse jamais sairia do lugar
que estava. Era prisioneira e algoz de si
mesma.
Ainda
que retalhando os que amava. Ainda assim.
Queria
morrer por seus próprios pés. Viver por suas
próprias mãos. Se não tinha coragem-calço
para romper o fio imperceptível da vida,
queria pelo menos construir o resto dos seus
dias. Alma-olaria , aceitaria esse fito.
Que,
pelo amor de Deus não a matassem !
Que
não a sufocassem com quireras de cuidados,
arranjos, acontecências de-assim .
Não
valeria a pena .
Sentir
a dor da existência era não resistir no
termo do vivenciar. A vida era o exercício da
prostituição dela. Que a deixassem em paz.
Que
a deixassem em paz com a sua solidão
infinitamente láctea.
|
|
Autor:
Silas Corrêa Leite
Poeta,
Educador, Jornalista
Pós-graduado
em Literatura, Comunicação, Relações
Raciais e Inteligência Emocional.
poesilas@terra.com.br
|
|
sobre a obra:
Floriza é um trabalho de ficção Premiado no
Concurso Paulo Leminski de Contos, promovido
pela Unioeste-Universidade do Oeste do Paraná
|
|
|
|
|
|
Livro
de visitas
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
página
inicial
|
índice
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|