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Os jornais noticiaram que FHC, em Portugal e
na Inglaterra, sentiu-se no direito de dar lições
a Lula. Para tanto, disse que Lula está
pregando muitas coisas novas e outras certas.
Para o orgulhoso presidente as novas não são
certas e as certas não são novas. Ou os
acertos de Lula são frutos dos projetos
inaugurados no seu governo, ou os erros são
resultantes de suas novas próprias.
O projeto mais atacado foi o do combate
à fome. O doutor FHC, do alto de seu título
oxfordiano, proclamou que não há fome no
Brasil, mas, sim, subnutrição.
Neste sentido o presidente repercutiu
todo o coro daqueles que se manifestaram
contra o projeto de combate à fome. Até
mesmo a dona Zilda Arns ergueu sua voz para
dizer que o auxílio aos famintos não deveria
ser feito através dos cupons. Nesses últimos
tempos, nenhum projeto governamental recebeu
tantas críticas e gerou tantas notícias
negativas.
Curiosamente todas as contestações
lançadas são de natureza semântica. Ou é
fome ou é subnutrição. Ou se paga em
dinheiro, ou em cartão ou em cupom. Portanto
ninguém é contra o projeto, mas os
opositores lançam duros torpedos contra a
forma de que está sendo feito. Reversamente,
somente as autoridades estrangeiras aplaudem
entusiásticas o projeto. Enfim um projeto
social no Brasil, dizem !
Vamos aos casos concretos. O Papa João
Paulo II, na sua visita ao Brasil, com a voz
escandalizada, proclamou uma verdade “inconfutável”:
"Meu Deus, meu Deus, essa gente passa
fome".
As autoridades da ONU e do BID que
receberam o engenheiro José Graziano, em
Washington, saudaram a idéia e
comprometeram-se com ela, seja para criar créditos,
seja para disseminá-la entre os países
pobres.
Nem no Brasil há dúvidas com relação
ao problema. O Jornal da Tarde, em 14 de
novembro,
comentou
o péssimo resultado da avaliação dos
nossos alunos na última prova do ENEM. Muito
embora o governo de FHC alardeie suas façanhas
no âmbito da educação, o resultado foi o
pior dos últimos cinco anos. Um milhão e
trezentos mil alunos foram examinados, dos
quais 74% tiraram nota abaixo de 4, ou seja,
foram reprovados. Dos alunos da rede pública,
84,5% levaram bomba. Os alunos da rede privada
tiveram um aproveitamento 13 vezes superior ao
da rede pública. Do total de alunos
inscritos, 65% são oriundos de família que
recebem menos do que cinco salários mínimos.
Alunos provindos de famílias que recebem um
salário mínimo tiveram de média 26 pontos.
Aqueles que seus pais recebem acima de 50 salários
mínimos conseguiram 52,6 pontos.
Daí se extrai duas conclusões
gritantes. . A primeira: a educação
brasileira vai de mal a pior. A segunda: há
uma barreira econômica impedindo o avanço
educacional das classes de menor renda em
favor dos alunos de famílias melhores
remuneradas e que cursam escolas particulares.
. Os dados são do Ministério de Educação
de FHC.
Toda vez que se quer boicotar um
projeto, desloca-se o foco, evitando discutir
o seu elemento básico, trocando-o por questões
periféricas. Parece-me ser este o problema
maior. É melancólico o debate semântico que
tenta empanar os efeitos de números
projetados até mesmo pelas autoridades
federais. Tais vozes lamentavelmente tentam
estancar a lição do Papa João Paulo II e
das mais significativas autoridades
internacionais.
A polêmica lembra outra ocorrida
na Alemanha que, no passado recente,
proibiu que se cumprisse mandados judiciais
durante o "repouso noturno".
Imediatamente os sábios passaram a debater
quando se inicia e quando acaba o repouso
noturno. A que horas ? Na cidade ? No campo ?
Enquanto durou a discussão semântica, os
delinqüentes continuaram soltos.
O problema brasileiro é mais grave Enquanto
os sábios estiverem discutindo qual é o
limite existente entre a fome e a subnutrição,
algumas crianças estarão sendo empurradas
para a deseducação e dela para a violência,
e, o que é pior, outras, com menos sorte,
estarão almoçando calango ou morrendo
de inanição. Em lógica, tal doença
chama-se logomaquia.
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