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Tornou-se má.
Foram
tantas as decepções que ela mudou de feição,
de atitude e de coração.
Escondia-se
por trás de um semblante tranqüilo, calmo,
pacífico, amigo...mas era perversa. Ela
mesma, não fazia mal a ninguém, até se
recriminava quando em vez, pelos pensamentos
mesquinhos, porém ganhavam os prazeres medíocres:
- vingança é um prato que se come frio,
dizia! E se comprazia com o sofrimento do
outro.
Consolava a consciência
dizendo: - Como estou cansada de levar
"porrada" da vida, vivo em estado de
alerta máximo...não quero mais sofrer, tudo
o que eu puder fazer para abrandar minha sina
eu o farei.
Se
antigamente o amor a fazia chorar, se antes
pregava a não violência, e tinha Gandhi como
ídolo, hoje trazia amargura em seu pobre coração.
Esquecera de ser
silenciosamente justa, libertária,
fantástica...Se antes
ficava impactada, com a beleza da
natureza, dos homens bons, com a caridade, com
as possibilidades da Educação, hoje...não
queria mais sofrer. Endureceu como uma pedra,
como madeira de lei, que nenhum cupim roia.
Se antes levava o bálsamo
que consola, a água fresca da bica, o
alimento do espírito, hoje ofertava o corpo
com vícios e achava tão natural....naturalíssimo
até. Conquistar e abandonar eram táticas
leves, brandas demais...Os homens mereciam!
Um dia
resolveu casar. Sair dessa vida rotineira. Porém,
paixão não era. Queria casar, ter filhos,
constituir família. O egoísmo
transformara-se em doença.
Atingir objetivos não exigia esforços.
O racional era seu lema. Arranjou quem a quis.
Avisaram-na:- Cuidado! VC não conhece o
rapaz. Quando casamos, casamos também com a
família dele. Mas ela confiava tanto em sua
garra, em sua força que não ouvia ninguém.
Tudo foi tão rápido,
tão breve, que numa bela noite, percebeu-se
sendo espancada por ele que enlouquecido pelas
drogas via amantes em todos os lugares...
Sentiu
fortes dores,o sangue corria-lhe pelas pernas,
acabara de perder o bebê, enquanto o marido
caía sobre a cama como em coma.. Ela
aproveitou verificou aquele sono de morte,
tirou do bolso do marido a chave da porta,
tremia, respirou fundo, conseguiu sair,
telefonar para a mãe adotiva que sempre
aconselhara, agüentava suas torpezas, não
perdia a esperança de resgatá-la, de fazê-la
enxergar de fato a vida como os lados de um
prisma de cristal: ora estrela multifacetada
de cores, ora o lado escuro,sem luz, sem
brilho...
Socorrida,
sofreu a perda da criança. Odiava mais a
vida, que segundo ela nada lhe ofertava.
"
Deve haver algum lugar no mundo onde eu possa
me esconder...onde eu possa ficar em PAZ!
Onde
possa usufruir da companhia de mim
mesma! E me compreender, e
entender, e ter tempo para refletir
sobre como devo ou não agir diante da
inevitabilidade dos fatos...
Interessante
reflexão !
Porém,
voltou para o marido que lhe prometia mudanças,
horas cor-de-rosa, o paraíso.
Sabia
que ele não mudaria. Ele era assim. Sempre
fora. Ela é que não queria ver. Percebeu que
gostava de sofrer. Era com ele que queria
ficar.
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