Crônicas e Críticas - O lambe-lambe e a primavera
 
 
 
O LAMBE-LAMBE E A PRIMAVERA

 

 
                                 
 
            De "ver primeiro" do latim nasceu  o vocábulo primavera em português.  Trata-se da única estação do ano feminina provavelmente porque o encanto da maternidade atinge a terra e do seu seio germinam as sementes das novas vidas que se convertem em flores e árvores.
 
            Do céu desabam as chuvas que empapam o chão e dão verde às folhas que fogem do resto da secura que lhes cobriu o frio.  Chove forte. Já tem água bastante para lavar o telhado, diz o meu vizinho.
 
            Silenciosa e imperceptivelmente as flores e as flores iniciam uma dança inaudível para os homens, mas ouvida pelas fadas e bruxas que  compõem o cenário imaginário entretecido pelos raios solares.
 
            Lá na Praça Sete as folhas da sapucaia mudam da cor do verde para um rosa próxima do salmão. Próximo do museu dos troncos das curupitas saem as flores  muito cheias de néctares que atraem as abelhas. Pudera, a abelha  que lhe toma o mel chama-se curupira na linguagem nativa. Mel que envenena, segundo Silveira Bueno. Pelo que sei, tanto a sapucaia como a curupita são plantas amazônicas.
 
            As árvores do cerrado já cantaram a sua sinfonia prefaciando a primavera. Ipês e manacás já derramaram suas cores pelas colinas e vales como se houvesse uma mão invisível pincelando os campos, caminhos, veredas e sendas para que o homem permanecesse encantado perante tal milagre. Sem bem saber por que houve a criação e a recriação.
 
            Basta um dia de chuva. A vida é eterna em cinco minutos, já dizia uma frase chilena. Ou como perguntou Neruda, quantas semanas tem este sábado ? Quantos meses tem esta primavera ? Quantos anos tem esta noite chuvosa.  Basta um dia de chuva para a vida recobrar o seu sentido.
 
            Cada um dos meus amigos sonha construir uma praça segundo sua imagem e semelhança. Sonhos, sonhos são. A minha praça teria um lago e nele um fonte luminosa, com garças espalhadas pela grama. Duas figueiras enormes na parte debaixo. Um baobá na esquina da Visconde. Uma ficheira ao lado da estátua. Um fotógrafo lambe-lambe debaixo da árvore imitando um quadro antigo. Tudo resplandecendo de vida.  Tal como num dia de primavera foi uma Praça XV que ainda vive em minha memória.
         
                      
 
 
Sérgio Roxa da Fonseca
 
 
by neusa - outubro/2002
 
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