Cronicas - Uma loja mágica
 
 
 
UMA LOJA MÁGICA

 

 
-Boa tarde, senhor. Tudo bem? Disseram-me que sua loja é muito atraente. Aqui, segundo soube, encontramos sempre o que procuramos. Até sonhos o senhor consegue vender?
Como é bonita essa loja! Tantos objetos encantados que fico meio tonta no meio deles. Espero, entre tantas coisas preciosas, encontrar o que procuro.
 
Sei que o pedido é estranho, mas não custa tentar!
 
- Senhor, por favor, será possível que tenha um sorriso para me vender? Um sorriso assim bem bonito, enfeitado de inocência, pincelado do verde de alguém que ainda espera ser feliz? Talvez um sorriso de criança, salgado de doces lágrimas, com o gosto do sangue escorrendo de um joelho ralado num tombo, em folguedos infantis. Um sorriso assim me agradaria. Sei que será difícil.
 
Não vejo nele muito entusiasmo com o meu pedido. Não desanimarei, mesmo assim vou aguardar contando com sua boa vontade.  
 
- Por favor, procure mais um pouco, Eu posso esperar.
 
Enquanto ele procura dou uma volta pela loja tentando encontrar alguma prenda original. Talvez lantejoulas de um olhar enamorado em momento fortuito, caídas de algum rosto iluminado pelo amor. Aqui é tudo tão bonito que me parece possível até sonhar.
 
Quero ter um sorriso para ver se me lembro, ainda, como é. Não me recordo da medida nem da forma. Imagino-o do tamanho de um rosto alegre falando de encontros. Lembro-me apenas de que é uma coisa muito suave. Deve ter a leveza de um raio de luar.
 
- Oi, aqui estou, senhor. Achou meu sorriso? Não? Que pena! Sim, sei que está difícil. Não se apresse, eu espero.
 
Enquanto espero fico imaginando se o estoque se esgotou. Não creio, não há tantos sorrisos assim por aí. Quem sabe ele encontra um já fora de linha de produção? Um mais antigo que guarde, ainda, um resto de sinceridade do tempo em que seu dono acreditava em felicidade? Ou do tempo em que precisava viver contando mentiras brincando com os sonhos?
 
Talvez um que, quando cansado de tantas esperas, ainda não tinha perdido todas as ilusões. Quem sabe, tirando-lhe toda a poeira do cansaço, reanimando-o, ilumine-se um pouco.
 
- Sim, vou esperar.
 
Passeio a loja e nela me perco em fantasias. Enquanto isso é possível que encontre, como última opção, o sorriso de um palhaço. Aquele escapado de um soluço, escondido pela máscara. O sorriso maior de um coração amante que enchia de alegria os olhos das crianças, mesmo quando tinha sangrando o coração.
 
- Ótimo, o senhor encontrou, muito obrigada por seu empenho.
 
- Está meio amarrotado, desbotado, sem graça!
- Não tem importância, vou levá-lo assim mesmo. Vou guardá-lo em meu espelho para nele encaixar meu rosto. É possível que me conte histórias de amor ou dor e assim me convença de que mesmo os sorrisos puros e cansados guardam seus mistérios. Talvez se ilumine um dia.
 
- Sim, vou levá-lo! Muito obrigada, senhor.
 
Sigo meu destino levando esse sorriso como um amuleto, encontrado numa loja fantástica. Um dia voltarei para buscar um sonho bem bonito e já pronto para ser usado. 
 
Autora: Maria Augusta Christo de Gouvêa
autora dos livros:
"Vivendo as Perdas sem Danos" - 3a edição
"Terceira Idade, ainda tempo de Semear" - 1a edição
ambos pela Editora Vozes
 
 

 

 
by neusa - agosto/2003 - dois anos de neupoesias
 
 
 
 
 
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