Crônicas e Críticas -
 
 
 
O PRESENTE

 

 
Depois do abraço atrapalhado, sentou para abrir o presente. Desconcerto. Timidez. Ansiedade. Não tinha a mínima idéia do que era. Metódica, desgrudava cuidadosamente cada pedaço da fita adesiva. Ele estava sentado ao seu lado, acompanhando, silente, cada pequeno movimento de suas mãos. Os convidados já haviam ido embora. Só ele ficou. Todos sabiam que gostava dele. Menos ela.
Há muito tempo não festejava seu aniversário. Não gostava sequer de ser cumprimentada. Dizia que não havia o que comemorar. Que era um dia como outro qualquer: insuportavelmente igual. Debochada, argumentava que Deus, a cada manhã, reproduzia uma cópia do seu dia anterior. Só para não desperdiçar criatividade com ela. Aliás, Ele, os habitantes deste planeta, quem sabe de outros também, todos eram partícipes de uma conspiração contra sua felicidade. Já estava conformada. Não se importava mais. Naquele ano, os amigos, que jurava não ter, prepararam uma festa surpresa. Não pôde fugir.
Quando havia aberto uma pequena parte do embrulho, ele levantou e a puxou para dançar. Era uma música suave, aconchegante, sensual. Corpos colados, não sabia qual respiração era a mais confusa. As mãos dele passeavam pelo seu corpo. Nenhuma palavra. Só calor. Escondia o rosto em seu ombro. Tinha medo de que seus olhos se tocassem. Tudo transpirava discretamente. As mãos. A pele. A vida. As pernas, trêmulas, sustentavam o corpo cada vez mais leve. Um troço quente corria doido nas veias. Desejo. Mas não confessava pra si mesma. Não podia trair a tristeza que a acompanhava há tantos anos. Afastou-se dele, alegando estar cansada. Com os olhos em chamas e a boca seca. Ele sorriu e sentou novamente ao seu lado. Não disseram nada. Ela pegou o embrulho outra vez.
Os ouvidos amigos já sabiam de cor o roteiro de suas lamentações. Começava pela infância pobre, seguia pela adolescência sofrida, até chegar a realidade adulta, clímax da dor. Convencia a todos, mais por cansaço do que por fatos, que tudo lhe havia sido negado. Os sonhos, desfeitos. Os caminhos, fechados. E os poucos presentes que a vida lhe dera, por compensação, haviam sido tirados, um a um. A sangue frio. Sem aviso. Sem barganha.
Falava compulsivamente. Emprego fútil. Salário medíocre. Noivado rompido. Família injusta. Amizades falsas. Enumerava as tentativas frustradas. As traições mais dolorosas. Não investia e acreditava em nada nem ninguém. Para não ser flagrada de novo, atrapalhada, catando os cacos dos sonhos no chão. Era mesmo infeliz. E o mais cruel: não sentiam pena dela. Um bando de insensíveis.
Estava ainda mais desconcertada para abrir o presente. Não queria rasgar o papel, pois poderia servir para embrulhar alguma lembrancinha. Sentia as pernas dele roçando nas suas. Ela sequer olhava para o lado. As mãos tremiam. O corpo inteiro. Aquela coisa quente correndo alucinada por dentro. Mexendo com tudo.
Ele tirou o presente de suas mãos e o colocou sobre a mesinha. Paralisada, não conseguiu dizer mais nada. Ele virou o seu rosto e a beijou. Lentamente. Sorvendo cada pedaço de sua boca. Ela tentou se afastar e lutar contra aquele mar que a invadia com suas ondas de fogo e delícia. Não resistiu. Largou as armas cansadas e mergulhou, vencida, naquele momento. O corpo cantava a alegria de sentir, depois de milênios, o calor de um outro corpo. Amaram-se a noite toda. Com a ternura mais selvagem que já experimentara. Até dormirem, corpos exaustos, abraçados no chão.
Quando acordou, ele ainda dormia. Recostou no sofá e ficou olhando para ele, fascinada e risonha, como criança quando abre os olhos na manhã de Natal e dá de cara com o presente que pediu. Não sabia o que fazer com aquilo que sentia. O que pensar. O que dizer para si mesma.
De repente, lembrou do embrulho quase aberto que a aguardava sobre a mesinha. Rasgou o papel e encontrou uma caixa. De dentro dela, retirou um pequeno espelho e um cartão com a mensagem que ele escreveu:
 
Meu amor,
 
No seu aniversário, eu quero lhe mostrar a face da única inimiga que você tem...
 
 
 
 
Ana Cláudia Saldanha Jácomo
 
 
by neusa - outubro/2002
 
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