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Tô ficando
velho! Um dia desses, às 2 da manhã, peguei
o carro e fui buscar minha filha adolescente
na saída de um show. Ela e as amigas estavam
eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio de
pijama, tentei entrar na conversa. "E aí,
o show foi legal?". A resposta veio de
uma das mais exaltadas do banco de
trás:
"Cara!
Tipo assim, foda!". E outra emendou:
"Tipo foda mesmo!"
Fiquei tipo
assim calado o resto do percurso, cumprindo
minha função de motorista. Tô precisando
conversar um pouco mais com minha filha, senão
logo logo vamos precisar de tradução simultânea.
Pra piorar
ainda mais, inventaram o ICQ, essa praga da
internet onde elas ficam horas e horas
escrevendo abobrinhas umas pras outras, em código
secreto.
Tipo assim :
"kct! vc tmb nunk tah trank, kra. Eh
d+, sl. T+ Bjoks. Jubys".
O que
significa : "Cacete! Você também nunca
está tranqüila, cara. É demais,sei lá. Até
mais, beijocas. Jubys".
Jubys, que
deve ser pronunciado "diúbis". Só
que este é o nome de batismo de minha filha Júlia,
um nome bonito, cujo significado é
"cheia de juventude", que eu e minha
mulher escolhemos, sentados na varanda,
olhando a lua... Pois Jubys é hoje essa
personagem de cabelo cor de abóbora, cheia de
furos na orelha que quer encher o corpo de
piercings e tatuagens.
Tô ficando
velho!Outro dia tentei explicar pro mesmo
bando de adolescentes o que era uma máquina
de escrever. Nunca viram uma. A melhor definição
que consegui foi: "É tipo assim um
computador que vai imprimindo enquanto você
digita". Acho que não entenderam nada.
Eu sou do tempo do mimeógrafo. Pra quem não
sabe, é uma máquina que você coloca álcool
e dá manivela pra imprimir o que está na
folha matriz. Por sua vez, essa matriz precisa
ser datilografada (ver
"datilografia" no dicionário) na
tal máquina de escrever, sem a fita (o que
faz com que você só descubra os erros depois
do trabalho feito), com o papel carbono
invertido... Tipo, é melhor você procurar na
internet que deve haver algum site sobre mimeógrafo,
papel carbono, essas coisas. Se eu ficar
explicando cada vocábulo descontinuado, não
vou conseguir acompanhar meu próprio raciocínio.
Voltando às
garotas, a cultura cinematográfica delas
varia entre a "obra" de Brad Pitt e
a de Leonardo de Caprio. Há anos tento
convencê-las a ver "Cantando na
Chuva", mas sempre fica para depois. Um
dia, cheguei entusiasmado em casa com a fita
de um filme francês que marcou minha infância:
"A guerra dos botões". Chamei a
Jubys para a exibição solene e a
coisa não
durou nem 5 minutos, pois ela
inventou "um trabalho de história
sobre a civilização greco-romana que tem que
entregar tipo amanhã, senão perde
ponto".
Uma amiga me
contou que o filho de 10 anos ficou espantado
quando viu um telefone de discar. Sabe
telefone de discar? É tipo assim um aparelho
sem teclas, geralmente preto, com um disco no
meio, todo furado, onde cada furo corresponde
a um algarismo. Você enfia o dedo indicador
no buraco correspondente ao número que
precisa registrar, gira o negócio até uma
meia lua de metal e solta a roleta, que lá
por dentro está presa a uma mola que a faz
voltar a posição inicial. Esse aparelho
serve para conversar com outra pessoa como
qualquer telefone comum, desde que esteja, é
claro, conectado na parede.
Eu sou do
tempo em que vidro de carro fechava com maçaneta.
E o Fusca tinha estribo e quebra vento. Não
espalha, mas eu andei de Simca Chambord, de
DKW, Gordini, Aero Willis e até de Romiseta.
Não dá pra explicar aqui o que era uma
Romiseta, só vou dizer que era tipo assim um
veículo automotivo, com 3 rodas, que a gente
entrava pela frente e a direção era grudada
na porta.
Procure na
internet, deve haver um site. Tá bom, tá
bom, confesso mais. Usei Camisa Volta ao
Mundo, casaquinho de Banlon, assisti à Jovem
Guarda, ao Direito de Nascer... mas é mentira
essa história de que meu primeiro disco
gravado foi em 78 rotações.
Há pouco
tempo, João, meu filho de 8 anos, pegou um LP
e ficou fascinado. Botei pra tocar e mostrei a
agulha rodando dentro do sulco do vinil.
Expliquei que aquele atrito gerava o som que
estávamos escutando... mas aí ele já estava
jogando o Pokemon Stadium no Game Boy. Não é
que ele seja desinteressado, eu é que fiquei
tipo patinando nos detalhes. Ele até que é
bastante curioso e adora ouvir as "histórias
do tempo em que eu era criança". Quando
contei que a TV, naquela época, era toda em
preto e branco, ele "viajou" na idéia
de que o mundo todo era em preto e branco e só
de uns tempos para cá é que as coisas começaram
a ganhar cores.
Acho que de
certa forma ele tem razão. Tipo assim...
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