Crônicas e Críticas - A crueldade da tortura
 
 
 
A CRUELDADE DA TORTURA

 

 
O médico, jornalista e professor José Eliomar, levanta no Diário da Cidade, o tema tortura na Semana dos Direitos Humanos, e realmente é oportuno que se discuta essa vergonha, para que tenhamos diminuído essa chaga que ainda ronda a vida dos presos, hoje os chamados presos comuns e outrora os políticos.
A tortura é o crime mais cruel e bárbaro contra a pessoa humana, e a história registra como uma chaga, que vem desde os antigos gregos e romanos, e também em nosso país, com relação aos escravos. A própria Igreja medieval torturava os chamados hereges, para que falassem a verdade.
A maioria dos povos subscreve e reconhece os princípios de defesa dos direitos humanos e a sua dignidade, e, no entanto, esses direitos estão sendo sempre suprimidos e violados em todo o mundo.
Embora, em nosso país, a tortura seja também uma instituição muito antiga, pois remonta ao descobrimento, com os maus tratos aplicados pelos colonizadores portugueses, nos indígenas donos das terras, e posteriormente nos escravos, mas ela ocupou, a condição de instrumento de rotina, nos interrogatórios sobre as atividades de dirigentes sindicais e estudantes, especialmente a partir de 1964.
A deposição do Presidente João Goulart trouxe ao movimento sindical e de todas as organizações não governamentais, voltadas à consolidação das reformas de base, graves conseqüências com a prisão em massa de seus líderes.
Tínhamos, os dirigentes sindicais de Itajaí, como metas políticas, dentro dos chamados princípios das reformas de base, o desenvolvimento da Sociedade Beneficente dos Trabalhadores e Colégio Pedro Antônio Fayal, obras que orgulham àqueles que foram acusados de comunistas.
A Sociedade Beneficente não teve continuidade, mas o FAYAL, apesar do boicote criminoso de Detoie, pois graças a Paulo Bauer e Lito Seara, que corajosamente se colocaram a sua frente, e indicaram, felizmente, o bancário Ludegério Niehues, e é hoje um orgulho para a nossa cidade.
O Colégio Fayal, obra dos comunistas de então, embora não mais gratuito, é ainda competentemente dirigido pelo Professor Niehues e já com duas faculdades.
E a tortura, também foi usada como instrumento de intimidação, dos militares que depuseram João Goulart. Éramos levados para Florianópolis, e lá submetidos ao macabro fuzilamento com pólvora seca. A técnica era levar grupos de 8 presos até uma outra ilha próxima da capital, todos com capuzes pretos e os braços amarrados.
Éramos fuzilados, mas antes, um de nós tirado, sem que os demais vissem, e no seu lugar, era colocado um soldado, para depois, se fingir de morto, vestido com a roupa daquele que havia sido excluído. E após o fuzilamento, tiravam o capuz, e aí vinha o auge do terror, um companheiro havia sido morto. E os torturadores diziam: "hoje matamos somente um amanhã não sabemos quantos". Em verdade era apenas um teatro macabro, que naquele momento desconhecíamos, pois aquele que fora retirado grupo, felizmente, tinha sido levado para um outro alojamento. E só tomamos conhecimento que estavam com vida, quando fomos colocados em liberdade.
 
 
 
 
Carlos Fernando Priess
Advogado em Itajaí - Foi  preso político durante a ditadura militar
 
 
by neusa - julho/2002
 
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