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Às vezes, em minhas buscas me
assusto ! Busco em mim aquela menina moça
cheia de sonhos...cheia de ilusões típicas
da idade!
Hoje, mais amadurecida, me olho no espelho e vejo
a transformação que os anos causaram. Mas, o
que me assusta não é o reflexo daquela
menina-moça num rosto maduro, com pequenas
rugas informando o sinal dos tempos! Não. O
que me assusta é que dentro de mim, lá bem
escondidinho, ainda é muito marcante a presença
daquela jovem princesa sonhadora, que morava
na torre de marfim guardiã de seus sonhos, à
espera do famoso príncipe encantado. Os anos
passaram e nem
todos os sonhos se tornaram realidade;
o sonho de
ser mãe, de ter filhos lindos, sadios,
de construir um futuro sólido, baseado em
alicerces profundos, realizou-se, mas, e os
outros sonhos? Onde foram parar os projetos
anelados ao longo desses anos?
O sonho de ser uma advogada
criminalista de sucesso, da qual os meus pais
tanto se orgulhariam...talvez também os
filhos e os amigos verdadeiros.
Por
que não foram levados adiante com a
capacidade e a inteligência que meu pai
sempre dizia que eu tinha? Ah! Talvez, naquela
época, foram criadas outras alternativas, e
os sonhos, os projetos, passaram para um
segundo plano. Hoje, lendo o livro da minha
vida, vejo que as coisas realmente tomaram
outro rumo, porque eu tinha que trabalhar e
ajudar no sustento familiar já que pretendia
criar os meus filhos da mesma maneira que meus
pais me criaram.
Hoje,
mais amadurecida, vejo que não lutei pelas
coisas que eu tanto queria; percebo que eu não
vivi a vida que eu queria, mas sou consciente
de que fui eu que desisti de concretizar os
meus projetos.
Não
posso culpar ninguém pelos meus insucessos e
pela falta de coragem para lutar pelo que eu
tanto almejava. É possível que eu me
sentisse castrada, porque sempre que eu
exprimia a vontade de fazer uma faculdade,
ouvia a mesma resposta: com que tempo?
E os filhos, a casa, a alimentação, o escritório?
Coisas que se eu tivesse a maturidade de hoje,
simplesmente teria respondido: dá-se um jeito
para tudo. E eu teria sido a mesma mãe, a
mesma mulher que fui? Sinceramente? Penso que
não.
Eu poderia ter sido a mulher que
realmente eu queria ser, tudo seria diferente
e eu teria deixado aos meus filhos e netos uma
história para contar, quando eu já tivesse
partido para uma nova vida no plano
espiritual.
Entretanto,
eu não tive forças suficientes e, ao
encontrar a primeira barreira, caminhei para
trás, tive medo; talvez, eu não fosse
bastante inteligente como papai me dizia, ou
simplesmente me acostumei a obedecer ao
que as pessoas achavam ser melhor para mim. E,
nessa muda obediência, eu me revoltava e
vivia uma vida falsa, percorrendo caminhos que
não deveriam ser percorridos, trilhando
estradas desertas, sem água, convivendo só
com a solidão, me sentindo fracassada,
derrotada.
Hoje,
olho para trás e não vejo mais os muros, os
obstáculos que não podem ser removidos com a
minha vontade, com a minha determinação, com
meu querer. Será tarde demais para
recomeçar?
Hum! Essa frase feita até parece o título
de um filme; quem sabe um filme em preto e
branco como foram todos esses anos da minha
vida, porque eu permiti, porque eu fui
covarde, e a única arma que os covardes usam
e dominam é a maledicência... partem para a
defesa porque se atacarem, sabem perfeitamente
que nunca vencerão, uma vez que sua forma de
lutar e suas armas são retrógradas, de puro
ferro velho, enferrujadas pelos anos em que
ficaram abandonadas.
Por
que digo que me assusto quando vejo o meu
passado refletido no espelho, me perseguindo
pela casa, pela rua, pelas praças e até no
semblante das pessoas que encontro
ocasionalmente? Porque, como disseram os sábios,
"o espelho
é o reflexo da alma".
Desse reflexo é que eu tenho medo.
Cresci, amadureci, busquei novos caminhos,
percorri quilômetros de alamedas escuras,
desertas, e ao sentar-me para descansar dos
pesados fardos sobre as minhas costas, eu
comecei a vislumbrar no meu espelho interior
uma nova vida, e a acreditar que eu sou capaz
e posso mudá-la.
Então,
ao continuar meu percurso, continuei sozinha,
sem peso nenhum, porque aquela bagagem inútil
que carreguei a vida inteira , eu deixei para
trás, junto com o passado, porque nessa nova
alameda circundada de flores silvestres, que
perfumam e me inebriam a alma, eu encontrei um
novo marco, e nesse marco estava escrito, com
letras simples e bem coloridas:
"Aqui
começa a estrada para uma nova vida, a sua
vida. Saiba percorrê-la, e no final encontrará
a realização do que você foi
impedida de fazer por ter sido fraca e
medrosa. Aqui nessa alameda passam somente os
corajosos, os lutadores, pessoas comuns que
batalham pelo seu objetivo de vida e se consagram vitoriosos. Venha, você também, amigo, amiga,
dê-me a mão e vamos caminhar juntos para
recebermos a bandeira quadriculada da vida que
percorremos, para sairmos triunfantes e
orgulhosos de nós mesmos, com grande quietude
e acalentadora paz que o nosso espírito está
alcançando nessa nova estrada!"
Não
importa que eu não tenha sido a primeira a
chegar ao pódiun dos meus sonhos realizados,
o que me importa é alcançar, agora, o
primeiro lugar no pódiun da minha vida!
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