|
Chego
em casa e tiro o casaco, os sapatos, as meias.
Este exercício já me deixa exausto. Não
tenho mais a vivacidade e nem mesmo a vontade
que eu tinha há vinte anos. Essa barriga que
agora é minha, essa falta de cabelo e os
poucos que restam, esbranquiçados, que agora
são meus, ontem já não eram.
Sento-me
para comer. Os pratos postos à mesa denunciam
o que sou: Fritas, gordura, álcool,
condimentos. Não gosto de comida diet ou
light. Gosto de comida "fight".
Gosto de tudo que dizem fazer mal, mas que sem
dúvida nenhuma é muito mais saboroso.
O
Doutor Guimarães, cardiologista, aconselhou
que eu mudasse meus hábitos. Disse que eu não
poderia fumar, não poderia beber, deveria
fazer exercícios físicos diários. Sexo ele
ainda não proibiu. E mesmo que proibisse, eu
ainda não cessei com o cigarro, com o uísque
e o único exercício que faço diariamente é
gargarejo. Escovar os dentes me dá câimbra
nos músculos do braço. Outro dia resolvi
fazer Cooper com uns amigos que buscam uma
vida saudável, que tem bons hábitos. Não
fumam, não bebem. Tenho dúvidas de que também
não trepam. Eles completaram oito quilômetros.
Em dez metros de exercício minha língua
triplicou seu tamanho natural.
Nietzsche,
em seu livro "Obras incompletas" tem
um texto capitulado "A filosofia na época
trágica dos gregos". Neste trecho ele
comenta a visão de Heráclito de Éfeso sobre
o problema do vir-a-ser de Anaximandro, filósofo
grego pré-socrático. "O eterno e único
vir-a-ser, a total inconsistência de todo o
efetivo, que inconstantemente apenas faz
efeito e vem a ser mas não é, assim como Heráclito
o ensina, é uma representação terrível e
atordoante, e em sua influência aparenta-se
muito de perto com a sensação de alguém, em
um terremoto, ao perder a confiança na terra
firme..."
Quero
chegar com as palavras floreadas de Nietzsche
a uma degradação biológica constante que
existe a cada milésimo de segundo que se
passa no universo. Se o leitor chegou a
conclusão de que fiquei louco, tenho a leve
impressão de que está absolutamente correto.
Mas posso me explicar.
Vamos
supor que a expectativa de vida do homem seja
de dois mil anos. Poderíamos muito bem ficar
lendo esta crônica durante dois dias
seguidos, sem pausa pro cafezinho. O que são
dois dias comparados a dois mil anos. Alguns
minutos. Mas a vida humana vive apenas oitenta
anos em média. (Meus amigos corredores chegarão
lá. Eu me contento apenas chegando aos
cinquentinha). O que quer dizer que a cada milésimo
de segundo a degradação biológica vai
enfatizando-se até completar seu estado
completo, ou seja, a morte. Mas nem após a
morte essa degradação se completa. Augusto
dos Anjos não me deixa mentir. "Já o
verme, este operário das ruínas, que o
sangue podre das carnificinas come e a vida em
geral declara guerra". Assim que somos
concebidos caminhamos eternamente para a
morte, e eu ainda contribuo para essa maldita
degradação com meu cigarrinho e minhas
bebidinhas. Além daquela maravilhosa picanha
mal passada. Chego a babar no teclado ao
escrever essas palavras. Como Nietzsche dizia,
o "vir-a-ser" é eterno e único.
Estamos sempre vindo a ser alguma coisa. Mas
nunca seremos nada, pois a cada milésimo de
segundo nos tornamos outro. Nossas células vão
morrendo e se multiplicando ciclicamente. Acho
que Nietzsche (que nomezinho) devia titular
seu texto como "A degradação na época
trágica do tempo". Se alguém se opuser,
os fios brancos de cabelo que caíram no chão,
ao meu lado, poderão comprovar o que digo.
|
|