Cronicas - Sonhos vividos
 
 
 
SONHOS VIVIDOS

 

 
"Vai doer, quando o sol da manhã me acordar, e ao meu lado eu não te encontrar, pode ser que eu acabe chorando…"
 
Ele acordou com o velho sucesso dos Originais do Samba tocando insistentemente dentro da cabeça. Ninguém ouviu falar mais deles, nem da música… Afinal, já se vão mais de trinta anos. De onde veio essa música?
 
Ele virou para o lado, e ela ainda estava lá, dormindo. Mas ela não era "ela". Teria sido tudo um sonho? Cuidadosamente, virou-se de costas para a mulher e começou a fazer um esforço para colocar os pensamentos em ordem -- um esforço atrapalhado pelo samba que insistia em tocar repetidamente em sua cabeça, como um disco de vinil arranhado.
 
Não era incomum ele ter sonhos, digamos… vívidos. Sonhos com cores, sons, texturas, aromas. Mas esse parecia ser demais, não apenas um sonho. Esse era o tipo de sonho que o mantinha cansado durante todo o dia. Era como se ele tivesse se transportado a um outro plano e agido, incansavelmente, durante toda a noite. Quando reencontrava seu corpo terreno, o espírito estava cansado.
 
Mas… E a música? Ele procurou começar do começo. Lembrou-se de que tinha ido a uma festa na casa de colegas de trabalho da Embaixada dos EUA, em Brasília. Na festa, conhecera uma garota americana que tinha vindo a Brasilia a convite de uma amiga da embaixada. Morava em Belo Horizonte, onde ensinava inglês na Fundação João Pinheiro. Seu nome era, no mínimo, uma coincidência feliz para ele: Patricia Boyd. Para ele, fã dos Beatles, que conhecia todas as letras e os detalhes da vida dos quatro de Liverpool, era o mesmo que se tornar George Harrison por alguns momentos. Ela ria, com suas associações irreverentes.
 
Começaram a dançar, e a conversar, e a dançar e conversar, sem parar. Em sete ou oito músicas, suas vidas já haviam sido contadas um ao outro. Ele, com dezenove anos e ela, com vinte e seis, agora já se olhavam nos olhos intensamente, e se queriam, mais que tudo. Tímido, ele não sabia como ir adiante, e foi com um misto de surpresa e excitação que ele ouviu dela o convite para dividirem uma cama.
 
Deixaram a festa rapidamente para começar um caso de amor que duraria muitos meses e o marcaria pelo resto da vida. Por sorte, o apartamento da amiga que a convidara para vir a Brasilia estava vazio, e eles dois não tiveram problemas de acomodação, durante todo o fim de semana.
 
Como todo sonho, este também teve flashes que não seguiam uma ordem racional. Ele vai a Belo Horizonte ficar com ela, o pai morre, ela junto a ele no enterro, a mãe dele que a desprezava por acreditar que ela não passava de uma maníaca sexual ("onde já se viu uma mulher nove anos mais velha se interessar pelo meu filho, ainda mais uma americana, aquele povo que eu odeio?"), ela vem a Brasília, ele não tem dinheiro para manter um caso de amor à distância…
 
A partir dessa sucessão de flashes, ele só se lembra de fragmentos. De que ela ria muito quando ele explicava a ela que "burp", em inglês, significa "arroto". Ela achava a palavra sensacional, completamente onomatopaica. Era o próprio ruído em forma de palavra. De que os dois ouviram uma música dos Originais do Samba cuja letra tinha tudo a ver com eles, atordoados por tantos encontros fugazes e despedidas sofridas. Da noite em que ele quase morreu de vergonha quando, numa das primeiras vezes que dirigia um carro de transmissão automática, confundiu o pedal do freio com a embreagem que não existia e deu uma freada tão brusca que muito por pouco não a deixou com o rosto todo quebrado.
 
Ele se lembrou também da carta que recebeu dela, contando que estava voltando para Los Angeles, desejando tudo de bom a ele, e tentando manter uma certa distância que -- na época, ele achava, não podia jamais ser comum entre duas pessoas que um dia se amaram tanto. Nunca mais se viram.
 
A música não parava de tocar em sua cabeça, e mais de trinta anos depois, a saudade dela realmente começou a doer. Sem realmente entender por quê, ele começou a chorar baixinho, enquanto a mulher dormia.
 
Conseguiu se recompor antes que ela despertasse. Virou-se para ela, deu-lhe um beijo carinhoso. Com um suspiro, levantou-se e foi ao banheiro fazer xixi, tomar banho, escovar os dentes e fazer a barba. Tinha mais um dia de trabalho pela frente.
 
 
 
 
Autor: ??? - você sabe quem é?
caso saiba, por favor, envie rapidamente para que eu possa inserir os créditos.
algumas dicas sobre ele:
Âncora, repórter e editor. Trabalhou na Rede Globo, Radiobrás, Voz da América, Rede Manchete, Radio JB e CBS Brasil. Foi correspondente na Casa Branca durante vários anos. Vive e trabalha atualmente em Brasília.
 
enviada por Iran
tentamos localizar o nome do autor mas não conseguimos.
 
 

 

 
by neusa - março/ 2003
 
 
 
 
 
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