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Hoje
é 20 de agosto de 2124, quarta-feira, que no
Brasil agora chama Wednesday, já que o
português foi oficialmente banido quando nos
tornamos o 67o Estado dos United States of
Wide America, em 2095. Teve quem não gostou,
claro, principalmente depois que a Floresta
Amazônica virou aTropical Disney World, mas a
maioria apoiou porque finalmente pôde tirar
passaporte americano sem aporrinhação e
passou a receber salário em dólar. É
verdade que muitos brasileiros ainda conservam
um ranço xenófobo, o que é meu caso, por
isso este relatório está sendo escrito em
nossa antiga língua-mãe, que eu só domino
porque nasci lá no distante 1980. Fiz 144
anos, trabalho há 126, estou forte e saudável,
mas já ouço insinuações de que minha
carreira entrou no plano vegetativo. A vida
corporativa do século XXII não é justa com
o pessoal da sexta idade, como eu: basta a
gente chegar aos 140, e começa a ser
discriminado no trabalho...
Os
velhos tempos me dão saudade (uma de nossas
poucas palavras que entraram no Mega Dicionário
Americano, como sinônimo para "senseless
feeling"),apesar de quase mais nada ser
como era. Por exemplo, eu nasci com unha,
cabelo e dente, últimos resquícios de nossa
ascendência selvagem. E na juventude
pratiquei zelosamente um ato denominado
"sexual" para reprodução da espécie,
coisa que, hoje, a ciência simplificou muito:
basta ir a qualquer McDonald's, comprar um kit
de óvulo e espermatozóide (o número 3 tem
sido o preferido pelos consumidores, porque
acompanha uma Coca-Cola grátis) e inseri-lo
num tubo plugado a um sistema embrionário -
cujo nometécnico é "tamagoshi". Aí,
é só redigitar a configuração desejada do
genoma e depois ir clicando os comandos para
as cargas vitais de proteínas. Simples. Em
seis semanas, aparece a ficha fitoergométrica
da criança, os custos de alimentação e
educação e a mensagem "Are you sure you
want to give birth?" Meu filho mais novo,
o 365A27W648, vulgo "8", agora deu
de ser curioso e me perguntar porque no meu
tempo as coisas eram tão complicadas. Eu
tentei explicar para ele que o tal ato ia além
da simples reprodução, que a gente sentia
prazer em copular, e ele fez aquela cara de
nojo, típica de adolescente recém-saído da
universidade. Mas, tudo bem, ele tem só 4
anos, um dia talvez entenda melhor. Eu sei,
estou divagando, desculpem. Não é das
reviravoltas da natureza queeste relatório
trata, e sim das relações no trabalho. Meu
hiperboss vai fazer uma apresentação no mês
que vem, em Urano - com o criativo título
de"Como Enfrentar os Desafios do Século
XXII" -, e pediu minha colaboração. Ele
quer mostrar às novas gerações a evolução
da interação entre empresas e funcionários
ao longo dos últimos 150 anos, desde a
chamada "Era Jurássica Trabalhista"
(1980-2020) até o aparecimento do "Homo
Pizza", no final do século XXI. E me
escolheu porque eu vivi todas as etapas do
processo, além de ser o único por aqui que
ainda sabe usar algarismos romanos. Então,
vamos lá:
TRANSPORTE
Os
empregados acordavam de manhã e iam para seu
local de trabalho dirigindo um veículo pesadão
e lerdo, que funcionava queimando derivados do
extinto petróleo, chamado "automóvel"
- não sei bem por que esse nome, que
significa "move-se por si mesmo", já
que o tal veículo só se movia sob comando
humano e, algumas vezes, nem assim. Mas a
maior dificuldade era enfrentar o "trânsito",
do latim transire, "ir para a
frente", e esse era exatamente o
problema, já que o trânsito quase nunca ia
em frente, e daí originou-se uma frase de uso
muito comum, "Atrasei por causa do trânsito",
que literalmente significa "Fiquei para
trás porque fui para a frente". Ou seja,
aquele povo era duro de entender. O mais incrível
é que, apesar de tanta confusão e
contrariando a lógica, as pessoas ainda
conseguiam chegar ao que chamavam "local
de trabalho".
LOCAL
O
sistema jurássico de trabalho era coletivo, e
as empresas até usavam jargões como "teamwork"
para incentivar essas aglomerações, sem
atentar para o fato de que elas eram uma fonte
de proliferação de micróbios. O ponto de
encontro era o escritório, um lugar onde os
funcionários escreviam, daí a origem da
palavra. Eram áreas enormes, onde pessoas se
amontoavam em cubículos e passavam a maior
parte do tempo produzindo
"documentos", cuja principal
finalidade era a de servir como evidência física
de que as pessoas estavam ocupadas. Após
produzidos, os documentos eram imediatamente
"arquivados", de preferência em
lugares onde nunca mais pudessem ser
localizados. Isso na época tinha o mesmo nome
de hoje, "burocracia". A diferença
é que os atrasados do século XX faziam tudo
com oito cópias, e nós, 150 anos depois,
conseguimos reduzir para sete.
INDIVIDUALIDADE
O
primeiro passo para erradicar o coletivismo inútil
foi o "SoHo" (Small office, Home
office), uma sigla surgida aí por 2000, que
permitia aos funcionários trabalhar, confortável
e produtivamente, em suas próprias casas. No
Brasil, uma das conseqüências imediatas do
SoHo foi o aparecimento de uma variante
esperta, o "SoNo". O que obviamente
implicou num aumento brutal da quantidade de
documentos produzidos, porque só assim os
chefes acreditariam que seus funcionários
estavam acordados em suas casas. Depois do
SoHo veio o "SoCo", aí por 2050. O
"Co", todo mundo sabe, significa
Chip office. Foi quando as corporações
conseguiram implantar um microchip em cada
funcionário para controlá-lo 24 horas por
dia, desde o batimento cardíaco até o nível
de atividade dos neurônios. Uma das características
do SoCo que mais agradou às chefias - além
do comando de "wake up call" - foi a
possibilidade de emitir um choque elétrico
remoto quando o funcionário atrasasse a
remessa de um documento.
JORNADA
Trabalha-se
oficialmente 2 horas por semana, mas já há
rumores de que a jornada será reduzido para
100 minutos semanais. O que, tirando o tempo
necessário para o sono e as inconveniências
fisiológicas - que não sofreram alterações
nos últimos 100 000 anos -, dá umas 120
horas ociosas por semana. O professor Domenico
De Masi, que vive em estado de hibernação
metafísica na Itália, afirma que isso é um
absurdo, e defende a tese de que no futuro
trabalharemos 100 minutos por ano. Mas o
problema, mesmo, é que nunca conseguimos nos
acostumar com o ócio. Por isso, nossa maior
fonte de renda atual é a hora extra -
fazemos, em média, 14 delas por dia,
inclusive aos sábados.
EFEITOS
COLATERAIS
Hoje,
as megacorporações vêm se questionando se
essa troca do trabalho grupal pelo individual
foi realmente um progresso. Primeiro, porque
ninguém mais conhece ninguém, já que os
"colegas" viraram imagens
digitalizadas. Segundo, porque todo mundo
ficou sedentário e engordou uma barbaridade.
E terceiro porque os antigos executivos eram
estressados, e os novos sucumbem à depressão,
o que acarreta muitos suicídios (ou, em
linguagem ciberneticamente correta, self alt+ctrl+del).
O maior guru de administração do século
XXII - Tom Peters, vivendo confortavelmente em
estado gasoso, num tubo de ensaio - publicou
recentemente um artigo que está causando uma
comoção corporativa. Ele defende a tese de
que "nada substitui o contato
humano". Incrível, dizem seus fiéis
admiradores, que ninguém tivesse pensado
nisso ainda.
EMPREGO
Conseguir
um bom emprego hoje em dia não é difícil. O
duro é se manter nele, porque as exigências
para resultados de curtíssimo prazo aumentam
cada vez mais. O tempo médio de permanência
num emprego é de 28 horas. Daí o conceito em
moda ser o da habilidade para saltar de galho
em galho, ou "businessbilidade", que
se resume a três fatores: experiência cósmica,
formação galáctica e ser bem relacionado
com quem manda.
SEXO
As
diferenças entre sexos não são mais
limitantes para o preenchimento de um cargo. Não
porque tenha acabado a discriminação, mas
porque acabaram os sexos. A antiga classificação
"masculino/feminino/outros" caiu em
desuso a partir do momento em que os assim
chamados "homens" e
"mulheres" equilibraram seus níveis
de testosteronas e estrógenos. A ambivalência
chegou a tal ponto que hoje os dicionários só
registram a palavra "testículo"
como sinônimo de "pequeno teste aplicado
a estagiários".
HIERARQUIA
Nos
tempos primitivos, as posições hierárquicas
eram decididas ou por competência ou por
protecionismo. Mas levava vantagem quem
acumulava mais diplomas. Tudo mudou a partir
do momento em que foi implantado o sistema de
"Transferência Integral de Informações",
pelo qual qualquer ser humano, quando completa
2 anos de idade, é acoplado a um
megacomputador Deep Blue e absorve, em 15
minutos, o conhecimento acumulado pela espécie
nos últimos dez milênios. Tem aí uma novíssima
teoria dizendo que isso nos transformou numa
raça de esponjas, e que o grande diferencial
atual é saber pensar por conta própria, em
vez de enfiar o dedo no nariz e dar um "retrieve".
Segundo a teoria, há uma minoria de pensantes
que consegue se perpetuar nas chefias porque
tem "Inteligência Psicoemocional",
ou seja, uma combinação balanceada de
"instinto", "conhecimento"
e "autocontrole". Eu acho que já
ouvi isso antes, só que não me lembro bem
quando foi.
RELACIONAMENTO
Os
funcionários têm abertura para se comunicar
fora do trabalho, desde que respeitem o
conceito-chave do século XXII: Lógica
Absoluta, ou seja, os assuntos devem ficar
restritos aos negócios. Sentimentos e emoções,
manifestações consideradas
contraproducentes, estão proibidas desde
2104. Mas sempre tem quem não sabe aproveitar
a liberdade: nosso maior problema social são
os subversivos que se reúnem escondidos para
praticar o maior delito da atualidade: rir e
contar piadas. Não é por acaso que o maior
best-seller desta semana é o cibertexto de
auto-ajuda "Você Pode Ser Feliz, Desde
Que Ninguém Saiba".
INFERNET
A
arcaica Internet, uma rede de comunicação
que causou furor no fim do século XX, e que
hoje é citada como exemplo de paranóia
coletiva, foi substituída pela Infernet, à
qual todos somos plugados logo ao nascermos. A
palavra veio do latim infernus, "subterrâneo",
uma analogia a seu formato de raízes que
alimentam o caule central. O caule, de onde
saem e para onde convergem todas as informações,
é a Suprema Inquisição, cuja regra é
"Todos somos iguais perante Deus".
Sendo que Deus, como todos sabem, é Bill
Gates. Embora corra por aí o boato de que
quem manda, mesmo, é o ACM.
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CONCLUSÃO
Em
meus 144 anos, vi o futuro ir acontecendo, e
aprendi pelo menos uma coisa: as previsões
estavam sempre erradas. Acho que descobri o
porquê. Outro dia achei um livro antigo, que
já caiu em desuso por ser a negação da lógica.
De qualquer forma, lá foi escrito, há
milhares de anos, que cada dia é diferente do
outro, exatamente "para que o homem nunca
possa descobrir nada sobre seu próprio
futuro" (Eclesiastes, 7, 14).
Em
1999, no auge de uma carreira bem-sucedida que
o levou à direção de grandes empresas (Pepsi,
Elma Chips e Pullman), MAX GEHRINGER tomou uma
decisão raríssima no mundo corporativo:
abriu mão do poder e das mordomias de alto
executivo para dedicar seu tempo a escrever e
a fazer palestras pelo Brasil. Max escreve
regularmente para VOCÊ s.a., Exame, Revista
da Web!, Vip e Placar (todas publicadas pela
Editora Abril). Recentemente, Max lançou seu
segundo livro, Comédia Corporativa (Editora
Campus). O humor e a sensibilidade dos textos
de Max vêm de sua vivência prática num
mundo que ele conhece degrau por degrau: seu
primeiro emprego, aos 12 anos, foi de auxiliar
de faxina. O último: presidente da Pullman.
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