ALUCINAÇÃO (NALDOVELHO)
Como saber-te debruçada em meus versos,
A vasculhar meus desentranhamentos,
A analisar detalhe por detalhe do meu desnudamento
E não me sentir revelado e de certa forma inquieto ?
Como saber-te imaginando coisas,
Mexendo em meus guardados,
A descortinar os meus segredos,
Lembranças tão cálidas, meus medos,
E não sentir-te perigosamente próxima e interessada ?
Ah ! Se eu não fosse tão descrente,
Prisioneiro de minhas próprias escolhas.
Ah ! Se eu não fosse um poeta,
Visceralmente exposto a tua visitação
E integralmente disposto a servir-te de alimento.
Seria então chama fria que ainda assim aquece,
Coisa distante que na imaginação padece,
Água da chuva que do lado de fora da vidraça escorre,
E que na realidade não te molha,
Seria só alucinação
Alucinação Perigosa (Elane Tomich
)
Com que zelo eu me debruçaria
Sobre teu fazer-te poesia!
Qual o tamanho do medo
Aquele que eu sentiria
Que, ao romper a linha curva
Limites do teu segredo,
Um novo e guardado horizonte
A mim se desvendaria
Ao saber-te templo aberto
Em gritos da claridade!
Onde, de você tão perto,
De mim, me veria em turva
Névoa, a esconder liberdade
Obrigada a escalar teus montes,
Da alma, experimentos
A carne a alterar meus intentos
De me suprir solidões
Sem o pleno do alimento
Que me alimenta ilusões.
Ah..Meu amor , quanto medo
De romper a linha curva,
Limites do teu segredo
Se a ilusão me turva
O intento da solidão.
E logo após desvendar-te,
Em teu querer de poeta
Querer-me nua, entregar-te
Minh'alma em linha direta
Descobrindo-me em sinuosa...
Alucinação perigosa!
AINDA BEM QUE DAS GERAIS SURGE UM CANTO! (NALDOVELHO)
Não há limites
Para o que o poema pretende.
Pois ao debruçar-me em versos,
Descortino segredos,
Ultrapasso barreiras,
Longínquas fronteiras,
Revelo meus medos,
Inquietudes, incertezas,
Dissolvo espessas nuvens,
Tempestades sombrias
E apesar disto tudo continua doendo,
Continua ardendo
E a pele ainda sangra,
Custa a cicatrizar.
Ainda bem que lá nos longes,
Quase chegando ao horizonte,
Mora uma poema rebelde,
Que escrito de forma tão terna
Quebra no homem o feitiço,
Desfaz o quebranto que emperra
E me dá forças pra continuar
A trilhar caminhos em desalinho,
Estreitas e acidentadas ruelas,
Madrugadas solitárias de esperas,
Pelo o que um novo dia possa me revelar.
Ainda bem que das Gerais surge um canto,
Um grito de amor e acalanto,
Que a alma do poeta acalma
Que me faz viajar em sonhos,
Acreditar na magia que um dia
Eu possa colher em seu colo,
Ainda bem que existem poemas,
Que secam as lágrimas que eu choro,
Cicatrizam em meu corpo os cortes
Pois somadas a minha e a sua poesia,
Mostram que sempre valerá a pena
Escrever muitos poemas,
Se bons ou não,
Não importa !
Manteremos aberta a porta
Acreditando que muito temos a ofertar.
PALAVRAS DE LAVRAS (Elane Tomich)
Não te chamarei jamais
Em cantos de cantos gerais
Ainda que em poema distante
Quero-te no singular
Ainda que escave minas
Lapidando ecos de ais
Aqueles guardados em versos
Incrustados em poemas
Palavras dos nossos avessos
Gritos de sentir, sem vogais
Assim.. bravios e constantes
Feitos só de consoantes...
Nos recônditos de um fonema
Imprecisos, quase um urro
Que temos de decifrar.
Na selvageria do instinto.
Pois que na caverna escura
No nosso buraco no peito
Mora um querer de estima
Que fica caçando um jeito
De escapar das agruras
Morando só em palavras
Quando será de outra lavra
A busca de nossa ventura.
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