Obscenas são as lágrimas
Que se contêm reprimidas
Num compartimento, espremidas,
Que se recusam ao pranto
Por constrangimento ou vergonha
E que a cada instante se entranham,
Cristalizados os desencantos
Que a vida não consegue dissolver.
Obsceno é o sentimento abortado
Pelo medo de novas feridas,
Posto que as que ainda persistem,
Sangram não cicatrizadas
E volta e meia insistem em doer.
Obsceno é manter as janelas fechadas
E impedir que a madrugada,
Possa ao trazer novos dias
Renovar no peito a crença
Num novo amanhecer.
Obscena são as chaves
Que não abrem mais portas,
E ainda dizer, pouco importa !
Pois não se tem para onde ir.
Obsceno e recusar-se ao poema,
Para não se expor o dilema
Que a vida ao criar obstáculos,
Ofertados em forma de escolhas
Trouxe para o nosso viver
E não perceber que nenhuma escolha,
Não passa também de uma escolha,
A de não se permitir o porvir.
Obsceno e negar o amor que ainda se sente
E transformá-lo em mágoa latente,
Triturada assim entre os dentes,
Até que brote dela o veneno
Que certamente irá nos destruir.
Que venham então as lágrimas
E que estas sejam repletas,
Copiosas e escorregadias,
Pra que possam dissolver desencantos,
Sendo o bálsamo preciso
Para cicatrizar na alma as feridas
E permitir que o sentimento
Brote sem constrangimentos.
Que sejamos então povoados de versos
Muita poesia decerto,
De preferência com janelas abertas
E chaves que abram muitas portas,
Possibilidades e infinitas escolhas,
Ainda que sem garantias,
Pois ganhar ou perder,
São fases de um mesmo jogo,
Necessário para quem se dispõe a crescer.
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