NaldoVelho - Obscenidades
 
 
 
OBSCENIDADES

 

 

Obscenas são as lágrimas

Que se contêm reprimidas

Num compartimento, espremidas,

Que se recusam ao pranto 

Por constrangimento ou vergonha

E que a cada instante se entranham,

Cristalizados os desencantos 

Que a vida não consegue dissolver.

Obsceno é o sentimento abortado

Pelo medo de novas feridas,

Posto que as que ainda persistem,

Sangram não cicatrizadas

E volta e meia insistem em doer.

Obsceno é manter as janelas fechadas

E impedir que a madrugada,

Possa ao trazer novos dias

Renovar no peito a crença

Num novo amanhecer.

Obscena são as chaves 

Que não abrem mais portas,

E ainda dizer, pouco importa !

Pois não se tem para onde ir.

Obsceno e recusar-se ao poema,

Para não se expor o dilema

Que a vida ao criar obstáculos,

Ofertados em forma de escolhas

Trouxe para o nosso viver

E não perceber que nenhuma escolha,

Não passa também de uma escolha,

A de não se permitir o porvir. 

Obsceno e negar o amor que ainda se sente

E transformá-lo em mágoa latente,

Triturada assim entre os dentes,

Até que brote dela o veneno

Que certamente irá nos destruir.

Que venham então as lágrimas

E que estas sejam repletas,

Copiosas e escorregadias,

Pra que possam dissolver desencantos,

Sendo o bálsamo preciso

Para cicatrizar na alma as feridas 

E permitir que o sentimento

Brote sem constrangimentos.

Que sejamos então povoados de versos

Muita poesia decerto,

De preferência com janelas abertas

E chaves que abram muitas portas, 

Possibilidades e infinitas escolhas,

Ainda que sem garantias,

Pois ganhar ou perder,

São fases de um mesmo jogo,

Necessário para quem se dispõe a crescer.
 
Autor: NaldoVelho
 
 
foto
 
Todos os caminhos dão a lado nenhum
de
Antonio Jorge Nunes
 
 www.antonionunes.com
 
trabalho de imagem : neusa
 
 
 

 

 
by neusa - setembro/2003
 
 
 
 
 
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