NaldoVelho - Segunda-feira
 
 
 
SEGUNDA-FEIRA

 

 


Mas que diabos !
E isto é lá jeito de se começar um poema ?
Também, bem provavelmente,
Não será um poema
O que nas linhas abaixo há de nascer.
Tudo bem !
Que seja uma prosa então...
E isto tudo por que hoje é segunda-feira.
Acordar antes das seis,
Chutar as cobertas pro lado,
Ir aos tropeços para o chuveiro,
Uma ducha gelada,
Depois um café e um cigarro,
O pulmão reclama assustado:
Já tão cedo ?
E você nem me dá uma folga !
E a cabeça se põe a pensar...
Acho melhor não escrever
Mais poemas de amor e fim !
Melhor que seja assim.
Poemas de amor são sempre doloridos
E por mais que se diga
Que eles servem pra exorcizar os fantasmas,
Sempre dói a ferida...
E ferida de amor não cicatriza nunca !
Melhor passar a escrever sobre cotidiano,
Crônicas, eis a questão !
Melhor falar da cidade,
Dos automóveis que passam
Em desabalada correria,
Num certo ponto tudo engarrafa !
Num caos que se repete todos os dias
E haja barulho e fumaça...
Melhor escrever sobre os excluídos
Da periferia da cidade,
Melhor escrever sobre a violência
Que a cada dia que passa
Se faz mais presente,
Nos fazendo sitiados,
Enquartelados em condomínios,
Tribos modernas desta nação chamada medo
Que cada um de nós merece viver.
Melhor escrever sobre os 'mudernos'
Aqueles que vivem a encontrar fórmulas,
Invariavelmente, de ganhar mais dinheiro,
Mesmo que a custa da miséria dos outros,
Neo-liberalistas selvagens,
Seres de outro planeta
Que vivem a canibalizar os humanos
E nem percebem que o sonho
Vai acabar por virar pesadelo
Que certamente irá nos devorar.
Melhor virar jornalista...
Escrever sobre a guerra,
Sobre a intolerância dos povos,
Sobre a ignorância daqueles
Que se dizem procuradores de Deus
E por conta do seu fanatismo
Vivem a massacrar seus irmãos,
Só pra fazer prevalecer
A sua sagrada razão.
Segunda-feira é sempre assim.
Quem sou eu pra falar de amor ?
Já são quase duas horas,
O estômago reclama !
Um almoço comido as pressas,
Voltar para o escritório
E a cabeça já não pensa
Esbraveja, se contorce e dói...
Todo este mecanismo selvagem,
Que sabe escrever sobre a política ?
Falar do quanto este povo
Vive sendo enganado,
Vive sendo usurpado
Nos seus mais elementares direitos.
Segunda-feira, tudo é sempre muito complicado !
Já anoiteceu e por aqui faz um calor danado,
Ligo o rádio e só escuto
Ritos tribais, batuques,
Lixo cultural que com muita tristeza
Eu vejo a minha gente
Prazerosamente consumir.
Ligo a televisão
E noticiário das oito repete o dia já visto,
Vivido sobre a pressão do notícias,
Não quero virar jornalista !
Depois vem a novela,
Ou então um filme enlatado,
Para os seres colonizados,
Mais violência na tela,
Melhor desligar a televisão,
Tomar um chá inocente
E ir pra cama dormir.
Amanhã é terça-feira,
Que sabe eu acordo um romântico ?
Que sabe eu volto a escrever poemas ?
Mas que sejam poemas de amor !
Pois a dor que por eles eu sinto
Desencrava os sentimentos latentes
E são, eu sei o alimento
Para que eu possa continuar a viver.
 
Autor: NaldoVelho
 
 
foto
 
Porta de Aveiro
de
Jussara Fabris Leite
 
 www.thousandimages.com/babi
 
trabalho de imagem : neusa
 
 

 

 
by neusa - março/ 2003
 
 
 
 
 
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