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Percebo a fragrância
Que suavemente me entranha,
Percebo a peçonha
Que insidiosamente me assanha,
Percebo as garras
Que impiedosamente me arranham,
Percebo a pele,
Branca e tão cálida,
Percebo as minhas pernas,
Trêmulas, tão frágeis
E o batimento do meu coração,
Acelerado, descompassado.
Percebo as frestas,
Grutas, reentrâncias,
Percebo a seiva
A jorrar dos teus poros,
Percebo a janela
Abusadamente escancarada,
E a porta convenientemente trancada.
Percebo a lua por inteira,
Conivente, alcoviteira
A dizer-nos: ainda é cedo!
Percebo as horas,
Lentas, sonolentas,
Percebo as lágrimas
Que indecisas não choram
E uma música nostálgica
Tomando conta do ambiente.
Queria que a noite
Nunca mais fosse embora,
Queria que a dor
Ficasse presa lá fora
E o amor
Ficasse livre aqui dentro.
Queria poder perceber
Por todo o tempo cada detalhe,
Até poder morrer,
Antes que seja tarde.
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