Novos poemas - Lágrima indigente
 
 
 
LÁGRIMA INDIGENTE

 

 


Palavras amordaçadas,

Sufocadas, soterradas,

Poemas insurretos,

Só sobrevivem nos sonhos.

A emoção que se esconde,

Sorrateira entre os dentes,

A lágrima indigente,

Represada, latente.

Não posso confessar que te amo !

Não devo declarar o quanto eu te quero !

Não quero mais a dor de um quem sabe ?

Pois o meu sangue hoje se arrasta

Por vias estreitas, congestionadas,

Pelos capilares já nem passam !

Por força de tantos atritos,

Conflitos, detritos...

Se insistir eu enfarto !

Melhor colar em meus lábios um sorriso,

Um que seja bastante convincente,

Mas não a ponto de ser contundente,

Senão pode soar falso

E servir de alerta aos descrentes,

Que vivem a buscar um sinal, uma fraqueza...

Que possa me denunciar.

Deixa que permaneçam desatentos,

Não posso demonstrar meu desalento,

Não posso mais dar asas a incerteza,

Ainda que a tua imagem assombre

Os meus mais íntimos desejos,

Ainda que na cabeceira de minha cama,

Permaneça o teu retrato.

Ainda sou um romântico,

Só que não mais um confesso,

Isto eu ainda não consigo evitar,

Mas este é um segredo de estado

Que a ninguém é permitido revelar.

Enquanto isto,

Qualquer lágrima será vadia,

Indigente e inconveniente,

De preferência chorada no chuveiro

Para que ninguém possa notar.
 
Autor: NaldoVelho
 
 
imagem : neusa

 

 
by neusa - fevereiro/ 2003
 
 
 
 
 
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