Recordar - 1.957 - O começo do fim
 
 
 
 
1957 - O COMEÇO DO FIM

 

 
 
Campos, Estado do Rio de janeiro.
Vinte e dois de agosto de 1957. Minha mãe agonizava, e eu com meus tenros seis anos, fui visitá-la na casa da minha tia Debir.
Até então, dividia meus dias no Rio, na nossa casa, até que a doença tomou conta daquela jovem mulher.
Minha mãe falou alguma coisa, que espantou todos os que estavam no quarto. Só eu não consegui entender sua mensagem...
No dia seguinte, recebemos a notícia do seu falecimento. Lembro-me de ir a pé da Av XV de novembro até a Av Pelinca, juntamente com Dindinha e o Pastor Benjamin.
Lá chegando, deparei-me com mamãe aparentemente adormecida e com uma faixa amarrada na cabeça, e os pés cobertos. Imediatamente descobri seus pés, pois sabia que ela assim dormia, e chamei-a várias vezes...
Sem sucesso, fui brincar com meus primos Keila e Chésil...
A tardinha, o caixão na sala, Het vestia um róbe branco que fora reformado, do seu vestido de noiva. Dei-lhe meu derradeiro beijo na testa, e todos foram para o cemitério do Caju.
Corri a esconder-me debaixo da longa saia de Dindinha, para que ninguém me visse, já que meus primos foram encaminhados à Igreja Batista.
No cemitério, colocaram o caixão num lugar que eu pudesse ver pela última vez o rosto pálido da minha mãe.
Seguiu-se o sepultamento, e alguém passou-me duas pás de terra...joguei meio que atendendo à uma ordem.
Quando finalizada a cerimônia, vi meu pai.
"- O que ela está fazendo aqui?"...(Era para mim...)
Papai não deixou que desenterrassem mamãe, e seguimos para o carro.
Não lembro quem dirigia, mas recordo-me de vovô na frente, papai, Dindinha e eu.
Ajoelhei e fiquei olhando o imenso portão fechando, quando no Céu vi claramente dois Anjos subindo, carregando uma mulher. Gritei e papai fez parar o carro. Todos saíram, mas ninguém conseguia ver nada. Só eu.
Fechou o portão do cemitério, e acabou.
Lembro-me uma semana depois, em Niterói, entrando na igreja para a missa de sétimo dia...
Como cheguei em casa, como foi o dia seguinte, como fui para o Rio, isso só Deus sabe. Quando eu perguntava para papai, ele desconversava. Quando perguntava para meus primos e minha tia, ela dizia que nada demais aconteceu.
Só que tenho esse bloqueio de uma semana na minha mente.
Essa data marcou-me profundamente, mesmo porque sou filha única, papai viajava muito e fui criada por uma tia no Rio, e passei a adolescência em Campos, na casa da irmã de mamãe.
Deus escreve certo por linhas tortas?
Fato é que decididamente, esse com certeza foi o começo de um longo fim. 
  
 
Mariete
 
 
 
by neusa - julho/2002
 
 
 
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