Recordar - Aula de vida
 
 
 
 
AULA DE VIDA

 

 
  
Em São Paulo, Capital, numa rua do centro da cidade - Maio - 1977.
Sempre ouvi dizer que a chegada de um bebe em casa  é um acontecimento que transforma a vida das pessoas mas jamais podia imaginar até que ponto esta mudança modificaria  minha vida e meu modo de ver o mundo e as pessoas que estavam a minha volta.
Devo  abrir um parênteses para explicar como eu encarara um bebe até então. Até saber que estava grávida  sonhava com um bebe como uma criança sonha com um brinquedo novo. Gostava de crianças mas não me sentia capaz de cuidar de uma. Nunca tive afinidade com bonecas. Encarava um bebe como uma pessoinha que chorava demais, vomitava leite coalhado e emporcalhava fraldas sem parar.
O mais próximo que havia chegado de um tinha sido aos 10 anos quando nasceu minha prima. Filha da irmã caçula de minha mãe, foi a única a resistir aos três ou quatro abortos espontâneos que minha tia sofreu. Como nasceu prematura, Aninha morou com a mãe em nossa casa durante alguns meses. Ela foi a boneca que tive para treinar trocas de fraldas e inúmeros banhos . Escondida no banheiro, enchia o bidê com água fria, usava sabonete comum, secava-a com trapos de limpeza tirados do varal e pulverizava com tanto talco que poderia até ser confundida com algum fantasminha.
Depois disso, até conhecer as filhas de meu ex-marido, jamais tive contato com qualquer outra criança. Eu as olhava de longe pensando que jamais teria um filho. Não tinha paciência para choros, roupas manchadas, nariz escorrendo e bumbuns sujos.
Com a gravidez meu instinto maternal finalmente aflorou com intensidade mas junto vieram dúvidas. Normais e corriqueiras , se apresentavam como imensas para quem não tinha experiência alguma. Teria que aprender tudo e não teria tempo para consultar livros. Também não teria apoio de ninguém, uma vez que havia fugido de casa para viver com o pai de meu filho e meu relacionamento com os familiares estava cortado há mais de três anos. Seria na prática mesmo . E o mais rápido possível.
Antes de sair do hospital com meu filho uma orientadora entregou-me alguns papeis e despejou uma enxurrada de informações das quais só lembrava de uma: horários. Meu filho, prematuro e muito pequeno (nasceu com menos de dois quilos)  teria horários e eu teria que segui-los rigorosamente.
Mamadas ,  banho,  remédios,  sol,  sono, água, vacinas, troca de fraldas. Tudo, absolutamente tudo tinha horário. Não poderia haver mudança, não poderia haver erro.
 Olhava para meu filho pensando se era realmente uma criança que estava em meus braços ou um relógio com vida. Seria impossível conseguir desempenhar o papel de mãe de um relógio tão exigente. Mas estava disposta a tentar.
Cheguei em casa orgulhosa com ele nos braços e logo após a primeira troca de fraldas começou o drama. Ele chorava sem parar. Verifiquei o alfinete das fraldas. Perfeito. Não estava machucando. Corri para a lista da maternidade. Claro, era hora da mamadeira. Eu não o amamentara quando nasceu pois ele ficou na incubadora mais de 20 dias e agora não poderia faze-lo pois não tinha leite. Segui as instruções fornecidas pela orientadora e primeira dúvida: uma medida de leite para 100 ml. de água.  Uma medida. Que medida? Qual era esta medida? Onde explicavam isso? Na lata? Na lista? Na embalagem da mamadeira?
Alê chorava desesperado e eu acompanhava. O pai? Pegou a chave do carro e saiu dizendo: - Não falei?
Uma vizinha, uma mulher a quem mal cumprimentava, aquela que era garota de programa, trabalhando no La Licorne (casa famosa pelas mulheres fáceis que a freqüentavam) veio em meu socorro. Desprendida, de alma limpa, usou seu telefone, falou com uma amiga que tinha filhos pequenos, pegou um táxi e em menos de vinte minutos voltou com a medida, a famosa e tão desconhecida medida que salvaria do desespero mãe e filho.
Passou por mim como se freqüentasse minha casa há anos, arregaçou as mangas, fez a mamadeira, lavou tudo e antes de sair, sem sequer aceitar receber o dinheiro gasto com o táxi, me deu um abraço, um beijo perguntando timidamente  se poderia vir no dia  seguinte segurar um pouco o bebe.
Foi minha primeira grande lição de vida. Aprendi que preconceitos não levam a nada. Pessoas pelas quais você sente algum desprezo, alguma antipatia, algum preconceito sempre tem alguma ou muitas coisas a ensinar e a dar. Basta apenas dar-lhes uma chance. Todos tem seu lado bom. Todos tem alguma coisa a dar a todos.
No dia seguinte, depois de uma noite quase sem dormir, perdida entre fraldas , mamadeiras, choros e reclamações do pai, acordei com a campainha. Era minha vizinha salvadora e protetora de mães inexperientes, acompanhada da empregada dela. Esta ficaria a minha disposição sem ônus algum durante a parte da manhã para ajudar nos afazeres domésticos. Minha nova amiga estava radiante apesar de trabalhar a noite e ficou com Ale a manhã toda para que eu pudesse dormir e relaxar.
Um anjo apareceu na minha vida e esteve a meu lado enquanto precisei dele. Durante dois meses este anjo conviveu comigo, falou dos seus sonhos e esperanças, das suas tristezas e alegrias e me deu lições de vida simples e reais. Fazia com que buscasse forças dentro de mim mesma que até hoje tenho duvido que tenha existido e estado tão próxima. Quando sentiu que eu estava pronta para seguir sozinha meu caminho desapareceu repentinamente da mesma forma como havia surgido .
Saiu numa manhã bem cedo, deixou um bilhete dizendo que aprendera muito comigo, que era grata pelo carinho e falta de preconceito com que a recebi e que, depois de nos conhecer, resolveu voltar para sua cidade,  no interior de São Paulo. Levava algumas economias, pretendia abrir um pequeno comércio, mudar de vida e quem sabe, conhecer  o seu príncipe encantado e ter um filho lindo como o meu. Nunca mais a vi mas também nunca mais a esqueci. Foi um anjo que apareceu na minha vida quando precisava muito e tão logo me viu poder caminhar só, partiu, quem sabe para ajudar outro alguém, em outro lugar.
 
 
 Neusa Cardoso
 
 
 
by neusa - julho/2002
 
 
 
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