Recordar - Os banhos das Caldas
 
 
 
 
OS BANHOS DAS CALDAS

 

 
  
Eu nasci em Portugal, numa cidade que se chama Caldas da Rainha. Claro que a minha cidade, começou a partir do nada, ou melhor, desenvolveu-se a partir duma nascente de águas sulfurosas.
O atual nome derivou do seu hospital, como havia de suceder à cidade brasileira de Santos, cujo nome proveio do Hospital de Todos os Santos que ali fundou o português Braz Cubas em 1543 e foi um dos mais antigos hospitais fundados nas Américas.
Segundo o historiador português Dr. João B. Serra, falam pouco as fontes medievais sobre as caldas de Óbidos. (nome original) no entanto sabe-se que já eram utilizadas pelos romanos. Foi posto o nome de caldas a fontes de “águas cálidas ou mornas” que jorravam a uma temperatura próxima da do corpo humano
Existe um testamento datado de 1222, onde D.Zoudo, legava um morabitino, para melhoria dos banhos das caldas de Óbidos, outro a uma albergaria ali existente e um outro ainda à confraria do Espírito Santo, para apoiar e albergar os doentes que ali se apresentassem.
A decisão de fundar um hospital, coube á rainha D.Leonor, mulher de D. João II, detentora das terras de Óbidos desde Agosto de 1482. O hospital estava seguramente já finalizado em 1508, e parcialmente concluído em 1502, funcionando com as obras de “correição dos banhos e das casas de aposentamento dos doentes” . Portanto o hospital termal é o mais antigo do mundo, e como foi mandado construir pela rainha, a cidade hoje chama-se Caldas da Rainha.
A minha cidade é germinada, com uma outra cidade termal no Brasil, e que se chama Poços de Caldas, que eu tive oportunidade de visitar em Novembro de 2001, quando viajei até esse maravilhoso país. Adorei visitar o hospital que se denomina Thermas Antônio Carlos, assim como o seu museu interior, onde pude admirar instrumentos medicais utilizados pelos nossos antepassados, mas que me fiz ram arrepiar porque pareciam mais instrumentos de tortura do que ferramentas medicais.
Depois de todo este preâmbulo, aqui vem então a minha história pessoal. As águas do hospital termal de Caldas da Rainha têm um caudal constante, e depois de passarem por diversas fases, são encaminhadas e enviadas para o mar, mas se dentro da cidade elas passam por encanamento subterrâneo, nos subúrbios da cidade, (e isto quando eu era menino) essas mesmas águas seguiam por valas a céu aberto, atravessando várias terras, antes de chegarem á lagoa de Óbidos, que por sua vez está ligada ao Oceano Atlântico.
Neste percurso estas águas eram ainda aproveitadas, para fazerem funcionar uma azenha, que moia trigo e milho, transformando este cereais em farinhas. Esta azenha estava situada no bairro das morenas (não sei a origem deste nome) mas antes de chegar a esta mesma azenha, atravessava uma fazenda que estava encoberta com eucaliptos. Nós os meninos, por vezes, depois de sairmos da escola primária, tínhamos por hábito ir tomar um banho nessa vala que passava pela tal fazenda.
Como a água estava morna era sempre agradável mergulharmos ali. Nós apenas fazíamos isto em períodos que a fazenda não estava sendo cultivada, para não causarmos danos. Sentíamos uma imensa alegria, chegarmos ali, deixarmos as pequenas malas com os livros e cadernos no chão, e depois de despidos, completamente nus,  mergulhávamos nas águas sulfurosas e quentinha. Como ninguém nos via, a coberto dos eucaliptos que havia á volta, tínhamos verdadeiramente um prazer imenso em brincarmos dentro daquelas águas. Certo dia, eu devia de ter no máximo nove anos, fui até lá com mais cinco dos meus companheiros. A cena repetía-se sempre, lá andamos nus dentro da água, mas quando regressamos ao local habitual, toda a nossa roupa, assim como as malas com os livros, cadernos e lápis, tinha desaparecido tudo.
E agora ? o que fazer ? Nós procuramos por todos os cantos mas não encontramos absolutamente nada. Como iríamos para nossas casas assim? Então alguém teve a idéia de ir cortar umas folhas de couve, numa outra fazenda ao lado, para podermos esconder os nossos pequenos sexos, e abandonarmos aquele local.
Todos nós estávamos muito envergonhados, quando nos dirigíamos cada qual para as respectivas residências.
Para chegar até á minha casa, demorava cerca de meia-hora, e claro até chegar lá, fui alvo de risadas gerais, de quem me via mascarado de Adão.
Quando lá cheguei, só estava a minha mãe, e depois de eu narrar o que aconteceu, ela ficou muito irritada, mas não ralhou comigo. Eu não sei bem o que se passou a seguir, mas o meu pai, não era para brincadeiras daquele gênero.
Quando ele chegou a casa, e depois de eu contar o que me tinha sucedido, saiu como um foguete, e quando mais tarde regressou, ele tinha as minhas roupas e a minha mala com os meus haveres escolares.
Sei que em conjunto com os outros pais, houve uma intervenção policial, contra o dono da fazenda. Nós fomos avisados para nunca mais invadirmos a fazenda, mas quem nos roubou as roupas teve um processo no tribunal.
Tudo isto, porque a rainha D. Leonor fundou a minha cidade, a partir de um hospital que tem águas muito quentinhas, isso eu posso garantir...!!!  
 
Fernando Santos 
(23-11-2002)
 
 
 
by neusa - janeiro/2003
 
 
 
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