Recordar - O cassino
 
 
 
 
O CASSINO

 

 
 
Em Setembro de 1985, fui passear e visitar a minha família em Portugal. O meu irmão, mais velho do que eu 8 anos, é um homem de negócios e precisou de se deslocar a Espinho, uma cidade situada no norte de Portugal e banhada pelo Oceano Atlântico. 
Como qualquer cidade que se preza, existem lá hotéis de luxo e também um grande Cassino  que se chama Solverde. O meu irmão convidou-me a acompanhá-lo nessa sua deslocação dizendo que todas as despesas seria ele que pagava. 
Como o regresso devia de se efetuar no mesmo dia aceitei fazer-lhe companhia pois ele mora em Lisboa e a viagem de ida e regresso demorava alguma horas além do tempo necessário para os assuntos que ele ia tratar. 
Acontece que neste tipo de reuniões, sabe-se a que horas se começa, mas nunca a que horas se acaba. 
Enquanto ele tratava lá dos negócios, eu fui passeando junto á praia, para mais tarde e á hora combinada nos encontramos para regressarmos a Lisboa. 
Acontece, que me fartei de esperar, pensei até que o meu irmão se tinha esquecido de mim, deixando-me ali abandonado. Mas como a paciência é uma grande virtude, as minhas ânsias desapareceram quando o vi chegar. Ele decidiu então que o melhor seria jantarmos lá, dormir num hotel e regressarmos na manhã seguinte. 
Depois de um telefonema, para que a família não se inquietasse conosco, resolvemos procurar, um restaurante para jantar. Ao percorrer uma rua em frente á praia, vimos um restaurante com aspecto muito modesto mas convidativo. O meu irmão, por estar habituado a certos contactos, e devido á situação dele, tem que freqüentar locais com certo prestígio, mas quando tem oportunidade, e que a ocasião se apresenta, adora, tal como eu, locais simples. 
Pois na frente do tal restaurante modesto, estavam várias churrasqueiras acesas, e estavam assando sardinhas. O meu irmão perguntou-me: -E se nós comêssemos sardinhas assadas com pão, acompanhadas com um bom vinho? 
Aceitei a idéia e foi ali mesmo no meio daquela fumarada toda que saía pela ação das sardinhas a assar, que nós comemos uma boa quantidade delas. O ambiente era tão agradável que saímos dali, já bastante tarde,” bem comidos e bem bebidos”. 
Saímos dali e a caminho do hotel encontramos o cassino. Mais uma sugestão do meu irmão:- Vamos entrar um pouco ? 
Tentei dissuadi-lo a não entrar mas os meus argumentos não foram muito convincentes e lá nos encontramos dentro do cassino. 
Não tenho vergonha de dizer que foi a primeira vez na minha vida que eu entrei nesse gênero de estabelecimentos. Disse ao meu irmão que entrava mas não jogava em nada. Ele disse: sim, sim, e aproximou-se de um empregado cujo trabalho era trocar notas por moedas. 
Antes que eu pudesse recusar ele meteu num dos meus bolsos, uma boa quantidade de moedas, dizendo-me: -vai, vai, procura uma máquina livre e diverte-te. 
Como era a primeira vez que eu me encontrava em tal ambiente, procurei primeiro ver como aquelas coisas funcionavam. Depois de olhar, verifiquei que todas as máquinas estavam ocupadas mas mesmo assim parei ao lado de uma, onde uma senhora, metia moedas, umas a seguir ás outras, puxando depois uma espécie de alavanca. Como não saía nada, ela olhou para mim, sorriu e abandonou a máquina. 
Aproveitei e foi a minha vez de meter algumas moedas, mas sem nenhum sucesso. Larguei aquela máquina e desloquei-me até uma outra, também ocupada. 
Quem lá estava, mais uma vez olhou para mim, sorriu e abandonou  também, e mais uma vez eu aproveitei. Bem, saíram algumas moedas, mas a verdade é que esta cena de trocar de máquina, repetiu-se 4 vezes, até que fiquei sem moedas, e resolvi parar de vez. 
Entretanto convenci o meu irmão que eu estava ficando com soninho e precisava de ir dormir. 
Não sei como, mas ele aceitou o meu pedido e lá saímos do cassino. Quando chegamos ao hotel dormimos no mesmo quarto e não tivemos dificuldade nenhuma em adormecer. Na manhã seguinte, quando acordamos, sentimos um cheiro nauseabundo que invadia o quarto. 
Tentamos descobrir de onde vinha tal cheiro e finalmente compreendi tudo. 
O cheiro vinha da nossa roupa, que estava empesteada do fumo das sardinhas. Como as comemos naquele ambiente, não nos apercebemos que transportamos o cheiro conosco, e então no cassino  as pessoas sorriam para mim mas era um sorriso fingido e deixavam as máquinas livres, porque eu cheirava mal por todos os lados. Eles não largavam as máquinas por prazer, apenas não suportavam o meu cheiro...!!!
 
 
 Fernando Santos
07.09.02
 
 
 
by neusa - novembro/2002
 
 
 
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