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A
casa de D. Filhuca era como coração de mãe
- sempre cabia mais um.
Uma mineira, esposa de baiano - Sr José Olímpio
- radicada em Minas, merendeira de grupo
escolar, que tinha visto minha mãe crescer e
brincar com seus filhos: Vergelina, Inês e a
Nega...
Alugava uma casinha de meu avô Cazuza e era
nossa vizinha.
Uma casinha alta, com alguns lances de escada
para se chegar à sala pequena com cadeiras
emparelhadas na entrada, mesa do lado esquerdo
ao fundo e um oratório com São Judas Tadeu
sempre iluminado com velinhas de azeite ou uma
lampadazinha vermelha, na parede do lado
direito, ao alto. Nesse oratório, ela passava
muitas horas do dia, conversando com seu amigo
mais íntimo - São Judas - em voz alta e
cobrando dele os pedidos que ela havia feito pensando
em todos da família.
Depois da sala, um longo corredor levava à
cozinha, e à direita estavam os quartos.
Esses , sim, eram a minha admiração: cheios
de camas com colchões empilhados. Ah! Que
quartos fantásticos. Cada colchão, uma história.
Uma grande família! Muitos filhos, netos,
todos pobres, trabalhando na grande São Paulo
e que vinham sempre para as festas de Natal da
minha terra.
Quando essa gente toda chegava, que alegria
naquela minúscula casa de grande coração.
À noite, nós, os vizinhos, ao irmos deitar,
ficávamos ouvindo aquele alvoroço.....os
mineiro-paulistas conversando até de
madrugada.
Pela manhã, era novamente o vozerio e um
empilha- empilha de colchões danado.
Pela tarde, passavam os ternos de
"CONGO"! Nossa, esses novos
paulistas corriam para fotografar, gravar as músicas
criadas pelo povo simples do interior e ver o
parente que havia resolvido entrar no terno
para dançar!
E, todos nós, olhávamos a comitiva real da
congada, com seus reis negros - o rei e a
rainha conga, indo para a igreja, e procurávamos
alguns netos de D. Filhuca que não negava, o
sangue baiano - "olha lá o Luizinho com
a 'caixa' na mão!!!!! "Que chapéu
lindo, colorido, cheio de fitas e
flores....."e lá ia o povaréu
acompanhando o terno de congo...pessoas
pagando promessas, vestidas de reis e rainhas
em homenagem a São Benedito, São Jerônimo,
Santa Efigênia, Nossa Senhora do Rosário....
Ah! D.Filhuca...até hoje eu admiro a sra. O
molhinho de chuchu baiano que a sra fazia ao
jantar e me oferecia...Chuchu cozido na água
que havia depenado o frango , e, lá na
saladinha entre os pedacinhos umas peninhas
pretas de galinha....pq a sra já não
enxergava mais.
Que saudades!
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