Recordar - Coisas do Pedro
 
 
 
 
COISAS DO PEDRO

 

 
   
A história de hoje, não é propriamente pessoal, eu fui apenas testemunha de certas cenas que vou descrever. Para começar gostaria de dar uma idéia de quem era o meu amigo Pedro. Ele era um pedreiro que trabalhava numa empresa de eletricidade (SEOL) e cujo trabalho consistia, na companhia de um eletricista a montar cabines de alta tensão, para fornecer energia elétrica em locais até aí isentos desta força. 
Ele morava numa aldeia cujo nome é Ribeira, que fica situada no conselho de Porto de Mós. Aquela aldeia era conhecida pela “terra dos brutos” pois naquela altura a educação e boas maneiras, eram desconhecidas por grande parte dos moradores. 
Eu era um jovem eletricista, que começava a carreira, e ele era um homem já próximo dos 60 anos. Tinha aspecto rude, mas tinha um coração de ouro, exceto para a esposa, pois que por razões que eu nunca descobri, viviam na mesma casa, ela fazia-lhe tudo, comida, roupa lavada, etc, mas nos últimos 30 anos de vida da esposa, ele nunca lhe falou, mas quando ela faleceu, ele devido ao desgosto, faleceu também 3 semanas mais tarde. 
Segundo o Pedro, naquela aldeia todos se conheciam, e os vizinhos ouviam as conversas que se passavam nas casas mais próximas. 
Entre outras histórias que ele me contava, recordo-me de ele me ter dito que num domingo de manhã, estava ainda deitado e ouviu um vizinho dizer para a esposa: “Bem, vou-me levantar, fazer xixi, e vou à missa...” passados alguns minutos, recomeçou outra vez; “Bem, vou-me levantar, fazer xixi, e vou á missa...” Quando alguns minutos mais tarde, ouviu, novamente a mesma  frase, foi a vez da esposa gritar: “Sinceramente não compreendo... em casa dos vizinhos, todos os dias se transa, aqui nesta casa, nem sequer aos Domingos” 
Também contava a história de uma outra vizinha, que tinha dois filhos, uma moça de 18 anos, e um menino de 7. Um dia o menino disse para a mãe: A nossa Maria, (referindo-se a irmã) está grávida... A mãe muito espantada, perguntou, a razão de tal afirmação... ele respondeu: Ontem quando estávamos sentados á mesa, eu espreitei e vi que ela não tinha calcinhas, e no meio da “perereca” vi o narizinho da criança a espreitar...  
Ele quando andava a trabalhar, de repente falava sozinho, e uma das frases que dizia, era: Salazar (que tinha morrido á pouco tempo, e que foi primeiro ministro, e grande ditador em Portugal) não morreu... foi para o reino de Deus... depois fazia uma pausa, ria, e continuava: Boff, quando ele chegar lá acima, certamente que se vai encontrar com o S.Pedro, e como são dois grandes brutos, certamente entrarão em discussão, vai haver briga, e vêm os dois cá parar abaixo que é uma beleza... só espero que caiam num lago de merda, e fiquem atolados até ao pescoço... 
Enfim, histórias do Pedro que me garantiu serem verdadeiras. 
Um dia, eu e o Pedro fomos enviados para uma aldeia próxima de Fátima ( a terra das aparições) que se chama S.Mamede, para montarmos uma cabine da alta tensão. Nessa altura, devido á falta de eletricidade, não havia hotéis, nem pensões, nem restaurantes, só a alguns quilometros de distância, em Fátima, essas facilidades existiam. 
Para remediar a situação ficamos hospedados numa casa particular, que pertencia a uma senhora viúva, e que assim a ajudava a receber algum dinheiro extra. Facilmente se compreende, que não havendo energia elétrica, também não havia geladeira, portanto para as nossa refeições, a dona da casa, comprava peixe a uma vendedora ambulante, que vinha da Nazaré todos os dias, fazer a venda naquela aldeia. Quase sempre durante a nossa estadia, o peixe que ela trazia, era “peixe espada” e o Pedro, já tinha dito á viúva que não queria mais “peixe espada”, que comprasse outra coisa. 
Devo de dizer aqui, que se o Pedro era natural da terra dos brutos, as peixeiras da Nazaré, não lhe ficam atrás, pois não têm complexos na língua. O Pedro era um homem baixo, e com uma barriga bem saliente. Certa manhã, quando íamos a sair de casa para o trabalho, a peixeira já lá estava, e a dona da casa, para satisfazer o pedido do Pedro, quis comprar outro peixe, mas não havia. Então ela disse: “Óh sr Pedro, há um problema, a vendedora só tem peixe espada”; O Pedro respondeu : “Óh raio, não compre mais essa porcaria, farto de peixe espada tou eu !” 
Aí a peixeira falou o seguinte, olhando para ele: “Áh seu barriga de ovelha, então você não gosta de peixe espada ?” 
Prontamente o Pedro respondeu : “Olhe que barriga de ovelha é o carneiro do seu marido, ouviu ?” A peixeira reagiu rapidamente dizendo : “Áh seu barriga de ovelha, olhe que o meu marido já morreu...” resposta rápida do Pedro; “Então se morreu, foi com o peso dos cornos...!!!” 
A continuação e final deste diálogo, é feio demais para ser descrito aqui, mas o que mais me impressionou, foi a facilidade com que, tanto a peixeira, como o Pedro, sem se conhecerem de lado nenhum, e nunca se terem encontrado antes, tinham frases espontâneas para responderem um ao outro...!!!
 
 
 Fernando Santos
14.09.02
 
 
 
by neusa - novembro/2002
 
 
 
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