Recordar - As gêmeas
 
 
 
 
AS GÊMEAS

 

 
 
Mara e Regina compunham o cenário  de magia de minha adolescência. Eram gêmeas univitelinas, e isso era  motivo para constantes confusões. Eu não me confundia, já sabia onde estava a diferença: nas covinhas da bochecha de Regina. Mas nem todos eram perspicazes como eu. E no fundo eu adorava ver a miscelânea que se formava em torno daquelas duas.
  Eram de uma inocência que me encantava. Coisas da educação antiquada que Dona Dilza e Dr. Gilberto deram a elas. Havia, no  entanto entre as duas um código de cumplicidade, de amizade que ultrapassava qualquer barreira imaginária. Se uma  atrasasse quinze minutos, era motivo para  outra sair desabalada pelas ruas gritando  desesperadamente.
 Certa ocasião, Regina saiu e demorou cerca de uma hora e meia pra voltar. Mara ameaçou se suicidar, pegou faca e foi uma confusão que ficou marcada na história do bairro. A calma só chegou quando Regina voltou com as peças do enxoval que havia saído pra comprar.
Certa tarde ouvimos gritos . Uma multidão  se postava em frente  à casa das gêmeas. Elas diziam que o tio,  o dentista Dr. João Luiz havia sido atropelado e morrera.  Os gritos  desesperados ecoavam de uma esquina a outra. Haviam reconhecido o corpo e tudo. Muita tristeza, pois o Dr. João Luiz sempre estivera  pronto para  ajudar os vizinhos numa emergência, e era um ser carismático. Era maçom, e o envolvia uma aura de mistério e respeito. E eu já pensava no enterro  a que teria que ir no dia seguinte, quando à noite ouvimos uma  nova gritaria no portão delas. Não entendi e fui lá ver. Era Dr. João Luiz que chegara do trabalho, e elas apavoradas, pensavam que fosse um fantasma.  Como poderia ele estar ali, se já haviam reconhecido o corpo? ? Mas  ele dizia que se haviam confundido.  Gritos de alegria e de espanto eram crescentes  .  A  rua ia se enchendo e todos apalermados vendo o morto-vivo.
Dona Dilza teve que ser atendida por um médico, pois desmaiou, e custou a voltar a si.  Ao voltar a si , vendo Dr. João Luiz tornava a desmaiar. Contei três desmaios.
Nunca entendi o ocorrido.
Há dois meses atrás, encontrei Dr. João Luíz, com seus netos, e lembrei-o  do fato. Contou-me que a pessoa atropelada naquele dia, sequer parecia com ele. Era  um rapaz magro e moreno. Ao passo que ele era alto e gordo. Só mesmo  elas poderiam  cometer tal equívoco, no espetáculo que sempre armavam .  Mas o interessante, dizia ele, é que elas eram tão verdadeiras no que faziam, tão exuberantes naquela inocência, que tudo o encantara, principalmente  ter sido visto como um fantasma.
Ele jamais esquecerá o fato de ter sido um morto-vivo. Ainda por cima, com um caixão comprado para embalar o cadáver, no competente enterro.
 
 
Belvedere
 
 
 
by neusa - abril/2003
 
 
 
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