Recordar - A influência dos mais velhos
 
 
 
 
A INFLUÊNCIA DOS MAIS VELHOS

 

 
Todo e qualquer ser humano, por muito bem que esteja na vida, nunca está satisfeito. Se está calor, quer ter frio, se está frio, quer ter calor, se é novo, quer ser mais velho, se é velho, quer ser mais novo, etc. etc. Enfim, os exemplos são muitos. Vem isto a propósito, de que quando eu estava na fase de deixar de ser menino, e entrar na terrível fase da adolescência, eu já queria ser adulto..., então eu prestava sempre muita atenção como se comportavam os mais velhos do que eu, e a seguir tentava imitá-los.
Sempre fui um menino normal, portanto é lógico que sentisse uma atração pelo sexo oposto. Eu notava, que naquela altura, quem  eu já considerava adultos, lançavam galanteios ou assobíos de admiração, quando viam passar alguma moça que consideravam ser “apetitosa”.
Recordo-me, que uma das frases ditas com mais  frequência era: “Ai se eu não fosse casado...” Com a minha idade, eu ainda não compreendia bem o significado de tal frase, mas decorei-a facilmente. Próximo da cidade onde residía-mos, havia uma praia que distanciava cerca de 12 km. e que se chama S.Martinho do Porto. 
Era normal durante o verão fazer-se campismo em locais adjacentes a essa praia, então eu com mais alguns amigos, e com autorização dos nossos pais, ía-mos para lá nos fins de semana. 
Durante essa época, também havia famílias que não tinham problemas com meios financeiros, e então permitiam-se de alugar casa na praia, durante um determinado período. 
Essas famílias, levavam sempre as empregadas, a que nós chamáva-mos de “sopeiras” porque além se se ocuparem dos filhos dos patrões, também faziam a comida, onde havia sempre sopa, daí vem o nome de “sopeiras”. Nessa praia existe uma estrada paralela ao mar, e contorna uma grande distância da chamada “baía de S. Martinho” .
Nas noites quentes de verão, era normal ver-se a passear muita gente por essa estrada, que vulgarmente chamamos marginal pelo simples prazer de passear, ou também para ajudar a digestão depois de algum jantar mais farto.
Também era normal, que as tais “sopeiras” arranjassem amizades entre elas, e em certos momentos passeassem também pela marginal, mas que nessa altura, tinha uma iluminação deficiente, poucos candeeiros de iluminação pública. 
Aconteceu uma certa vez, que eu, com os meus amigos, passeávamos de noite, calmamente sobre a areia da praia, quando notei, que pela estrada, seguia em sentido inverso ao nosso, um grupo de 5 sopeiras, não posso agora garantir as idades, mas devia de ser entre os 20 e 25 anos. Eu tinha 15 anos, mas pensava, ou melhor queria ser mais velho, e lembrei-me da tal frase que tinha ouvido dizer, aos mais velhos, então sem pensar duas vezes, aproximei-me um pouco da estrada e disse: 
-“Ai se eu não fosse casado”... 
Rapidamente uma das “sopeiras” saltou para a praia, e dirigindo-se para mim disse-me : 
-"Olha aqui meu menino, o que tu farias se não fosses casado?"  
A verdade é que eu não tive resposta para dar, e ao mesmo tempo notei que todas as outras “sopeiras” já estavam na praia, e se aproximavam de mim... Claro que comecei a recuar, sem saber o que fazer, ou responder, então uma delas disse: 
-"Vem aqui menino, anda mostrar o que farias"... 
Foi então que comecei a compreender que esses galanteios, não deviam de ser ditos por um menino da minha idade, e fui recuando, recuando, e quando notei que elas começaram a correr para me agarrarem, comecei a fugir, pois foi a única solução que encontrei. Felizmente que eu tinha o pé ligeiro. Sei que não fui muito bravo com a minha decisão, mas o que fariam 5 mulheres com um menino da minha idade, depois de eu as ter “provocado”?
Nunca terei essa resposta, mas aprendi que antes de falar, devo meditar no que vou dizer...!!!
 
Fernando Santos
03.08.2002
 
 
 
by neusa - setembro/2002
 
 
 
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