Recordar - Memória
 
 
 
 
MEMÓRIA

 

 
 
Não conheço a idade de quem lê as minhas histórias, mas penso que segundo uma estatística fornecida pela minha amiga virtual Neusa, a maioria dos leitores já ultrapassaram os cinqüenta, portanto, tudo me leva a crer que existe algumas pessoas que já têm netos. Ora segundo este mesmo raciocínio, certamente todos já observaram quer seja através dos filhos ou dos netos, a evolução engraçada da memória dos bebês. Recordam-se que por vezes, estes mesmos bebês andam em certos períodos do desenvolvimento normal com as mãos nas orelhas, apalpando-as e remexendo sem parar. Outras vezes andam com os dedos dentro dos buracos do nariz... Por que razão fazem isto ? 
Bem, é porque descobriram qualquer coisa nova... através do tato tentam memorizar o cérebro, da forma das orelhas, porque não as vêm... assim como os buracos no nariz... foi uma nova descoberta, e fazem a mesma coisa... quando o cérebro recebeu todas as informações, eles abandonam esta pesquisa para se dedicarem a outras descobertas, e assim guardarem em memória. 
Porque razão eu faço este entrato? É muito simples... certa vez, alguém que lê as minhas histórias, me perguntou: -Até onde a minha memória consegue recuar ? 
No momento não consegui responder, mas depois de muito pensar, o máximo que consigo lembrar é talvez com a idade de dois anos e meio... 
Foi com essa idade que descobri a diferença entre o dia e a noite. Até então eu estava habituado a andar a brincar na rua, e a certa hora entrava em casa, possivelmente já não me deixavam sair, até que um dia, no quintal eu fiquei até mais tarde, e para meu espanto notei que cada vez estava mais escuro... a luz do dia, lentamente desapareceu, e penso que entrei em pânico fugindo para casa. Tenho uma idéia muito vaga do meu pai a rir, falando-me do sol, que aparecia de dia, e da lua que aparecia á noite. Nos dias seguintes, eu ficava sempre olhando quando a luz natural desaparecia, para dar lugar ao crepúsculo noturno. E isso impressionava-me bastante, na minha imaginação infantil, eu ficava sem saber quem acendia um candeeiro tão grande, e depois quem o apagava. 
Mas continuando com o tema da memória, nunca ninguém me impressionou tanto, como a minha amiga Marta; essa sim tinha uma memória extraordinária. 
Em relação ao que está gravado na minha memória, ela era muito bonita, eu chamava-a de “Babyface”. 
Não sei se deva dizer que tinha os olhos verdes azulados, ou azuis esverdeados. Tinha uma habilidade muito desenvolvida para fazer desenhos, e também para pintar. Quando eu não compreendia bem o que ela tentava explicar, sem perder tempo, agarrava num papel e num lápis, e com uma facilidade incrível desenhava o que tinha na memória, para assim eu compreender melhor. Isto sim, pode-se chamar uma verdadeira memória. 
O exemplo mais flagrante, da memória que ela tinha, foi comprovado uma vez numa praia. Eu nunca gostei de ficar parado, deitado ao sol, á espera que o dia de praia terminasse, sempre gostei de tomar banho de vez em quando, e depois gostava de andar sempre á beira-mar, percorrendo longas distâncias. 
Certa vez, andei a passear com um dos meus amigos, e afastei-me bastante do lugar onde estavam as tendas, mas como disse antes, caminhava sempre á beira-mar. No regresso dessa caminhada, e ainda bastante longe das tendas, para minha grande surpresa, vejo a companheira do meu amigo que veio ao nosso encontro, acompanhada pela Marta, e uma outra moça, que não me recordo agora quem era. Perguntei como descobriram que tínhamos ido naquela direção, então a resposta foi rápida: -Foi muito simples, a Marta olhou para as pegadas na areia, e aí reconheceu o meu rasto, então a partir daí foi fácil seguir por onde tínhamos passado. 
Eu fiquei muito admirado, porque tenho pés normais, então como ela entre tantas dezenas de rastros reconheceu o do meu pé ?
A isto é que se pode chamar uma verdadeira memória! 
Não sei onde a Marta estará neste momento, mas devido á maravilha da Internet, se por acaso ela ler esta história, vai certamente se reconhecer. Caso isto aconteça, faça contacto com Neupoesias, pergunta qual o meu endereço eletrônico, gostava de saber notícias tuas...!!!
 
 
 Fernando Santos
 
 
 
by neusa - novembro/2002
 
 
 
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