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Janeiro/1.974
- Estava com tudo pronto para a mudança de
casa quando, dia 24, Djalma comunicou que
haveria mudança de planos. Ele teria que
viajar até Atibaia para buscar dois
engenheiros da firma, Carlino e Ullio, num
hotel fazenda. Fui convidada a ir junto.
Aquele
programa realmente não me agradava. Viajar,
pegar estrada, principalmente a Fernão Dias
num feriado de 25 de janeiro não me atraía
em nada. Mas ele insistiu tanto que acabei
cedendo. Almoçamos na casa da mãe dele e saímos
logo em seguida.
A
distancia entre São Paulo e Atibaia não
deveria passar de 100 kms. Talvez bem menos.
A
ida foi tranqüila. Seguimos no carro da
firma, um Chevrolet Opala 4 portas, novo e
confortável.
Apreciei
a paisagem e estava feliz por ter aceitado o
convite. Nossa mudança seria adiada mas, para
quem já
tinha esperado tanto e não tendo como
escapar daquela situação, o melhor mesmo era
aproveitar o passeio.
Fazia
tempo que não viajava para o interior. Vez ou
outra passava um final de semana no nosso
apartamento de Praia Grande. Ia com meu irmão.
Mas sempre chovia e pouco aproveitávamos. O
interior era tão diferente. Muitas árvores,
sítios, pequenas chácaras com plantações.
Muito verde, natureza. Lindo.
O
dia estava quente e abafado. O sol forte.
Deveríamos ter chuva no final da tarde mas até
lá já estaríamos de volta à Capital.
O
hotel onde o pessoal estava hospedado era
muito bonito. Ficava à beira da estrada, na
entrada da cidade. Piscinas, jardins
cuidados e floridos, quiosques, muitas
árvores.
Fui
apresentada a todos e muito bem recebida.
Por
volta das 17 horas saímos do hotel. Sentei-me
na frente, entre Di e Carlino. Atrás iam duas
moças e Ullio. Colocamos uma fita no toca
fitas e voltamos cantando.
O
tempo começou a mudar e grandes e pesadas nuvens surgiram de repente.
O transito estava pesado, moroso. A
estrada era estreita, sem canteiro central nem
guard-rail. Nada a dividia. Apenas uma faixa
amarela de sinalização.
De
repente começou a chover. Ao mesmo tempo o
transito fluiu com mais rapidez. A chuva caiu
pesada; era muita água caindo e os limpadores
do pára-brisa não davam conta de tanta
chuva.
Comecei
a ficar assustada. Di, ao invés de diminuir a
velocidade, aumentou um pouco. Estávamos a
mais de 80 kms por hora. A água misturada com
a terra que corria do barranco à nossa
direita escorria em forma de pequeno riacho
pela pista.
De
repente uma curva a direita a nossa frente. E
muita água barrenta. Di tentou entrar na
curva mas o carro dançou nos levando em direção
ao barranco. Ele deu uma guinada no volante e
perdeu totalmente o controle do veículo.
Demos um giro de 360 graus e o carro deslizou
na direção oposta ao barranco.
Tive
tempo de ver que passamos raspando na frente
de uma enorme carreta. Pensei que não veria
mais a luz do sol. Minha vida passou como um
filme diante de meus olhos em questão de
segundos. Lembro ainda de ter visto o carro
ir, descontrolado, de encontro a dois enormes
eucaliptos na beira da estrada, também do
lado oposto ao barranco.
Depois
não vi mais nada. Escutei ainda o barulho de
ferro sendo amassado, de vidros quebrando e
tudo rodava. Apaguei.
Não
sei quanto tempo passou mas não foi muito.
Estava de olhos fechados e tinha medo de
abrir. Tinha medo do que poderia ver. Não
escutava nada. Nenhum barulho, nenhuma voz.
Fiquei
imóvel por um tempo que me pareceu uma
eternidade. Tudo o que sentia era medo. Muito
medo. Pensei:
- Estou morta. Não sinto a chuva, não
ouço nada. Morri.
Depois,
muito devagar, sem abrir os olhos ainda,
apalpei o lugar onde estava. Sentia uma coisa
molhada, pegajosa entre os dedos. Queria abrir
os olhos mas não conseguia. Meu cérebro
funcionava mas meu corpo não obedecia aos
comandos da mente.
Tive a impressão de que vagava perdida
num lapso de tempo. Parecia estar ali uma vida
inteira. Aos poucos fui criando coragem. Abri
os olhos sem me mover. Temia sentir
alguma dor. Vi o céu azul bem acima.
Limpo, claro, lindo. Raios de sol passavam por
entre as
folhas das árvores a minha esquerda. Criando
coragem virei a cabeça com cuidado
inspecionando a minha volta. Via um barranco
também à esquerda. Movi a mão levando-a em
direção ao rosto, preparada para ver o
vermelho do sangue. Tinha vontade de gritar,
de chamar por socorro mas a voz não saia.
Olhei a mão. Estava suja, muito suja. Não
era sangue; era barro! Muito e maravilhoso
barro. Terra misturada à água. Árvores a
minha volta, mato, céu e sol. Eu estava viva!
Não
posso, não consigo descrever o que senti
naquela hora. Uma felicidade imensa. Como amei
aquele barro, aquele céu, aquele sol!
Criei
coragem e comecei a sentar. O corpo doía mas,
aparentemente,
não tinha quebrado nada. Alguns arranhões
no braço, um corte superficial no pé.
Lembrei-me dos outros.
Fiquei
em pé rapidamente. Não sentia nada. Parecia
anestesiada. Olhei
em volta e vi
à esquerda e uns 6 metros acima a
rodovia. Eu estava numa estrada de terra,
provavelmente caminho para alguma chácara. A
minha frente a uns 8 ou 10 metros, o carro,
tombado de lado, destruído. Di acabava de
sair por onde antes ficava o vidro traseiro e
tentava ajudava os demais a saírem.
Avisei que
estava bem e subi
rapidamente o barranco em direção a
estrada para pedir ajuda.
Fazia
sinal desesperadamente para os carros que
passavam . Como não havíamos batido em
nenhum outro veículo e da estrada não dava
para ver onde nosso carro estava, não
conseguia parar ninguém. Tive que ir para o
meio da estrada para chamar a atenção dos
que passavam. Afinal alguém parou e ajudou a
parar mais carros. Um motorista se propôs a
comunicar a policia rodoviária e chamar uma
ambulância.
Agradeci
e desci o barranco novamente, agora com ajuda.
Todos haviam saído do carro e estavam bem.
Nenhum ferido grave. Um ou outro corte, alguns
hematomas e muito susto.
Aguardamos
a chegada da polícia e checamos as avarias .
A ambulância chegou antes e conduziu
Ullio e as duas moças ao pronto socorro de
Mairiporã, município onde nos encontrávamos,
pois eles precisariam fazer alguns exames,
levar alguns pontos em cortes um pouco
maiores. Queriam que fosse junto mas recusei
dizendo que estava me sentindo bem.
Enquanto
a policia não chegava perguntei como tinha
ido parar tão longe do carro . Di falou que não
sabia. A última coisa de que se lembrava de
ter visto era o carro passando entre os dois
eucaliptos, o espelho de fora sendo arrancado
e um galho entrando pela janela dele e
arrancando o espelho interno. Nenhuma das
portas estava aberta. Continuavam todas com as
trancas abaixadas. Concluímos que eu fora
jogada para fora do carro pelo vidro de trás
enquanto rolávamos pelo barranco e fui lançada
longe. Realmente eu nasci de novo naquele dia.
A
polícia chegou e após fazer vistoria em
documentos e no veículo, comunicou que Di
teria que ir à delegacia para fazer um
boletim de ocorrência.
Carlino
e eu fomos dispensados e os policiais se
encarregaram de conseguir carona para nós até
a Capital.
Arrumaram
um Volkswagen que passava com um casal e
seguimos para casa. Eu não queria voltar para
a pensão onde estava morando e não poderia
ir para a casa da minha futura sogra. Não sem
o filho dela. Avisei antes de partir que iria
para a casa de uma tia (Edith).
Estava
suja de barro e molhada; o corpo esfriava e eu
começava a tremer. Precisava de um bom banho
, um comprimido e uma cama. Lá teria isto.
A
viagem de volta demorou muito. O trânsito era
intenso. Eu tremia muito. Todas as emoções e
sensações voltaram com intensidade total no
caminho. Queria gritar, chorar, mas não
conseguia. Mal conseguia balbuciar algumas
palavras. Os dentes não paravam de bater.
Carlino tentava me acalmar, sem muito sucesso.
Quando
chegamos perguntou se não preferia ir para o
hotel em que morava. Tomaria um banho e
aguardaria a chegada de Di. Não aceitei.
Perguntou se queria que ficasse comigo até a
chegada dele. Também não aceitei. Ele
precisava descansar também. Não fazia
sentido se incomodar comigo. Agradeci a ele e
as pessoas que nos deram carona e entrei no prédio
de minha tia.
Foi
um custo sair do carro. Com o corpo frio,
molhado e sem espaço para me mover, comecei a
sentir dores. Subir as escadas foi uma penitência
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pela qual tive que passar. Toquei a campainha.
Nenhum sinal. Ninguém atendeu. Toquei
novamente. Nada. Toquei muito, pela terceira
vez. A porta vizinha abriu. Dona Leonor, amiga
de minha tia, olhou-me assustada e perguntou o
que aconteceu. Não respondi. Queria saber de
todos. Onde estavam? Por que não tinha
ninguém em casa?
Ela
explicou que resolveram ir para o apartamento
da praia. Sentei no degrau, desolada. Ela
perguntou novamente o que aconteceu . Contei
sobre o acidente e lembrei que deixara minha
bolsa no carro. A chave do quarto, o dinheiro,
documentos. Ficara tudo no carro. Comecei a
chorar. Ela ficou mais assustada ainda.
Queria
que entrasse em sua casa, queria que tomasse
um banho e depois fosse a um hospital. Não
poderia faze-lo mesmo que quisesse. Estava sem
documentos. Ninguém me atenderia. Teria que
entrar na fila de indigentes. Precisava
descansar. Dormir. Estava com frio, com muita
dor, cansada.
Ela
tinha uma chave do apartamento de titia pois
cuidava dos gatos. Entregou-me a chave só
depois que prometi tomar um comprimido e chamá-la
se precisasse de algo.
Entrei
no apartamento, peguei uma das roupas que
tinha guardado lá . Tomei um banho quente e
demorado. O corpo doía muito. Mal conseguia
endireitar as costas. O pé estava inchado e
roxo. O ombro esquerdo eu não conseguia
movimentar. Tirar aquela roupa foi um custo.
Levei minutos, sentindo muitas dores.
Depois
do banho tomei duas aspirinas e, deixando a
luz acesa, deitei na cama de minha
prima Meire. Apaguei.
Acordei
muito tempo depois ouvindo as vozes de Meire e
dona Leonor. Ela havia voltado antes da praia.
Cuidou
de mim como cuidava dos filhos pequenos. Quis
saber detalhes do acidente. Detalhes que eu não
conseguia contar.
Quando
viu minhas costas ficou apavorada. Era um único
hematoma, desde os ombros até as nádegas.
Queria a todo custo que fosse a um médico ou
a um hospital. Eu não quis. Tinha medo de não
ser atendida, tinha medo que me internassem e
eu perdesse o emprego conseguido há menos de
dois meses; tinha medo que chamassem meus pais
e eles me obrigassem a voltar para a casa de
onde fugira para viver a minha vida por mim
mesma. Não fui. Tomei mais uma aspirina e
dormi novamente mal sabendo que a maior conseqüência
desse acidente eu só viveria muitos anos
depois e me impediria de estar em qualquer
estrada que fosse.
Quase
30 anos se passaram desde aquele dia e só
agora, com muito esforço, estou começando a
superar o trauma causado por um acidente que só
aconteceu por imprudência de um motorista
habilitado como profissional: o pai do meu filho.
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