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Hoje
vou voltar a falar da minha passagem pelas forças
armadas portuguesas, e da minha estada em
Timor. Nunca fui militar de carreira, naquela
altura era um governo fascista, e o serviço
militar era obrigatório para todos os jovens
do sexo masculino, quando atingissem a linda
idade de 20 anos. Nós dizíamos em gênero de
brincadeira, que com 20 anos éramos
considerados carne para canhão. De fato, vários
milhares de jovens morreram, e eu próprio
conheci alguns amigos, que nunca mais
voltaram... tristes recordações, mas não é
disso que vou falar, pois que esta rubrica, é
escrita apenas com o objetivo de divertir. Se
falei nisto, foi apenas para justificar a razão
porque me encontrei em Timor durante 24 meses.
Pois bem, eu pertencia á classe de sargentos,
e a nossa “messe” (era este o nome dado ás
nossas instalações) ficava situada no topo
de um monte, de onde se via uma magnífica
paisagem, e era composta por vários quartos,
uma cozinha, um refeitório e uma sala de
lazer, com um bar. Não posso dizer que as
instalações eram primitivas, mas
limitavam-se apenas ás paredes, pintadas de
branco, sem nenhuma decoração. Eu sempre fui
um homem ativo, ficar parado nunca foi o meu
passatempo favorito. Um dia lembrei-me de
colocar um pouco de vida no refeitório,
porque não era nada agradável, termos de
viver naquele ambiente cerca de 2 anos, e um
pouco de decoração serviria para quebrar o
stress (acho que esta palavra ainda não
existia naquela altura) Como decoração,
pensei que talvez uns quadros na parede
ficassem bem, mas teriam de ser bem grandes
para cobrir uma grande superfície. Nesta seqüência
de idéias levei a minha imaginação ainda
mais longe, e pensei: E se eu próprio
pintasse os quadros? A idéia era boa, mas
sinceramente eu não tinha experiência
nenhuma nesta arte, nunca tinha tirado nenhum
curso sobre pintura, não sabia que técnica
devia empregar
enfim, estava completamente no ponto
zero. Mais uma vez a minha cabeça não parou
e pensou numa célebre frase que diz : Deus
pode, o homem quer, e a obra nasce ! Como não
tenho imaginação suficiente para inventar o
que pintar, fui até um estabelecimento chinês,
e comprei duas cartas postais, com paisagens
orientais. Se eu conseguisse através de um lápis,
transcrever e amplificar diretamente na parede
aquelas imagens, talvez os meus objetivos
fossem conseguidos. E foi assim que comecei, a
partir do nada, o quadro começou a ganhar
forma. As tintas utilizadas foram restos da
secção automóvel, ás quais fui juntando
corantes, até obter o que eu pensava ser a
boa cor. Quer acreditem ou não consegui o que
pretendia. Depois pedi ao carpinteiro se ele
me fazia uma moldura envernizada, que seria
pregada á volta do que eu tinha pintado,
dando a ilusão que era um verdadeiro quadro.
Finalmente fiquei muito contente com a minha
obra, e recomecei tudo isto, pintando um
segundo quadro diferente. O refeitório ficou
assim muito mais agradável para os olhos. As
distâncias entre as localidades de Timor, não
eram muito grandes, mas as estradas eram
inexistentes, e para percorrer uma distância
de 70 km. através das montanhas por vezes era
necessário mais de 4 horas. Quando havia
militares que se deslocavam de uma unidade
para outra, por vezes paravam no nosso quartel
onde comiam e pernoitavam uma noite para
prosseguirem a viagem na manhã seguinte.
Certa vez, houve um que gostou muito dos
quadros, e quis saber, onde podia comprar algo
semelhante, para mais tarde levar para
Portugal. Fiquei surpreendido, por ele não
ter notado que aquilo estava pintado
diretamente, na parede, e resolvi brincar um
pouco. Disse que tinha sido eu que pintei,
(foi fácil de provar através da minha
assinatura) e que se ele quisesse eu
vendia-lhe o quadro. Os meus camaradas
presentes naquela noite, meteram-se na
conversa, e ajudaram á brincadeira. Quando
chegou o momento de dizer o preço, eu disse
que não queria dinheiro, se ele pagasse duas
cervejas a cada um de nós, o quadro era dele.
Sem hesitar, ele mandou o militar de serviço
ao bar servir-nos a bebida, pensando ter feito
o negócio do século. Notei que ele estava de
fato, radiante até ao momento em que eu lhe
disse, que podia ir buscar o quadro, mas só o
fiz depois de beber as cervejas. Foi então
que ele se apercebeu da realidade. No entanto
ele não se zangou, compreendeu que tudo
aquilo foi uma brincadeira, foi ele que quis
comprar e não eu que quis vender. Acabamos
todos por rir imenso. Então sempre que alguém,
vinha pernoitar na nossa “messe” os meus
camaradas, tornavam-se os meus agentes, e por
várias vezes os quadros foram vendidos. Nunca
se falou em dinheiro, era sempre cerveja.
Penso que esses quadros deviam de entrar no
livro de records “Guiness” como tendo sido
vendidos muitas vezes a compradores
diferentes, sem nunca terem saído do mesmo
local...!!!
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