Recordar - Sotaque
 
 
 
 
SOTAQUE

 

 
   
Pouco importa o que os métodos ultra sofisticados dos nossos dias nos permitem de comunicar, como o que estamos usando neste preciso momento, ou seja o computador, fruto de vários anos de pesquisas e da inteligência coletiva, na minha humilde opinião, a “palavra” ainda é, e será sempre a mais fabulosa e extraordinária maneira de comunicação que o ser humano desenvolveu. Quem pode negar, que certas vozes, nos fascinam, tanto pela clareza, do som, como a nitidez das palavras, que rapidamente compreendemos ? Nunca é demais enaltecer o trabalho extraordinário dos pais, especialmente das mães, que com uma paciência sem limites, vão ensinando aos filhos, uma após as outras, todas as palavras necessárias para a compreensão humana. Mais tarde, será aos professores, ensinar a completar frases perfeitas, colocando na devida ordem, os artigos, os verbos, os substantivos, os adjetivos.... A chamada língua maternal, é sempre aquela que desenvolvemos mais facilmente, e quando aprendemos outra língua diferente, temos sempre uma tendência a modificar os sons, para a nossa língua de origem, ou seja, guardamos um “sotaque”. Segundo certos estudos realizados, este fenômeno apenas acontece, se aprendermos outra língua, depois de termos ultrapassado a idade da puberdade. Estou em crer que isto é verdade, porque a minha filha, fala e escreve corretamente 4 línguas diferentes, sem nenhum sotaque, pois começou a aprender desde pequena, enquanto que eu, quando aprendi corretamente outra língua já era adulto. Não tenho dificuldade nenhuma em me fazer compreender, mas por vezes os meus interlocutores, notam que as minhas origens lingüísticas são diferentes. Mudando de assunto, mas sempre ligado ao mesmo tema, no mundo dos negócios, há sempre quem se lembre de novos métodos para nos obrigar a gastar o dinheiro. Aqui no Canadá, nos anos 70, apareceu uma nova moda, (felizmente hoje já ultrapassada) que eram restaurantes que serviam refeições, por empregadas em “Topless” Para quem não está familiarizado com este termo em inglês, isto quer dizer: “sem o topo” que neste caso queria dizer que as empregadas, não têm a parte superior, ou seja, serviam ás mesas com os seios nus. Não pretendo aqui ser moralista, emitindo opinião sobre isto, mas na minha opinião pessoal, quando vou a um restaurante, gosto de ser servido por pessoal que esteja vestido normalmente, enquanto que se me apetecer divertir, procurarei locais expressamente concebidos para esse efeito, mas as duas coisas juntas... não é para mim. Nessa época, eu trabalhava com um canadense, cujo nome é Jacques Urbain, e ele gostava muito de ir a esses restaurantes, para o desjejum. Volto a repetir, que esses ambientes, não me interessavam, mas certa manhã, depois do meu colega insistir muito, e ao mesmo tempo para satisfazer a minha curiosidade, entrei com ele, num “topless”. Sentamo-nos a uma mesa, e fomos servidos por uma moça que sinceramente, tinha uma dívida muito grande para com a beleza. Os seios dela eram pequenos, murchos, e pendurados, além que também não era bonita... O meu amigo Jacques, encomendou, ovos estrelados, com bacon (toucinho fumado) e café, mas eu tive nojo de comer qualquer coisa servido por ela, então encomendei apenas um suco de laranja que vinha numa pequena garrafa fechada. Quando a moça voltou com a encomenda, eu abri a garrafa do suco e comecei a vazar para dentro do copo, então a empregada, olhou para mim, e perguntou: Você é português ?  fiquei bastante surpreendido como ela tinha descoberto, e respondi : sim, sou de origem portuguesa, como descobriu ? Antes de responder, ela agarrou no meu copo do suco com uma mão, levantou-o até a um seio, e com a outra mão, fez o gesto de querer espremer o mamilo, perguntando-me num português esquisito, que tive dificuldade em compreender : você quer um pouco de leite misturado? Foi a minha vez, de notar que ela tinha um sotaque, diferente do português. Então ela explicou-me, que tinha tido muitos namorados, entre os quais um português, e que ele lhe tinha ensinada a falar a língua de Camões, e que notou que eu tinha um sotaque parecido com o do antigo namorado. Depois desta explicação eu pedi-lhe que me falasse um pouco em português, para ver o que ela sabia. Bem, frases completas ela não conseguiu dizer nenhuma, mas  asneiras, palavrões, bobagens, ela sabia tudo...  Por aqui, podem imaginar que tipo de mulher era ela. Para finalizar, devo de dizer, que acabei por não tocar no meu copo, porque não sei se gostaria de suco de laranja com sabor a bacalhau...!!! 
 
 
 Fernando Santos
12.04.2003
 
 
 
by neusa - abril/2003
 
 
 
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