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O ano de 1976 começava. A
cidade estava parada por causa das férias
de verão. Nada
funciona direito no Brasil até o término
do
carnaval. O comércio tenta manter as portas
abertas com liquidações. As empresas não
contratam ninguém. A TV não exibe programas
novos. Tudo fica para depois, quando o
carnaval acabar.
Estava
desempregada desde final de novembro. Corria
agências de emprego, respondia a anúncios
sem conseguir uma entrevista que fosse. Cada
dia em casa sem trabalhar era mais uma gota no
copo da depressão que me invadia.
Djalma
não se dava conta da realidade da nossa situação.
Continuava sua vida como se fosse o centro do
universo. Gastava, e muito. Comprava coisas
desnecessárias, insistia em almoços e
jantares em restaurantes e pouco se importava
com o que eu queria , sentia ou pensava.
Quando muito perguntava se já tinha arrumado
algum emprego.
Minha
tristeza e decepção eram tão visíveis que
não poderia encarar meu pai. Desde que saíra
de casa nunca deixei que soubesse dos meus
problemas. Não queria que ficasse preocupado
comigo e resolvi, a partir da minha fuga, a
assumir minha vida sozinha sem envolve-lo em
minhas dores de cabeça. Conhecendo-me como
conhecia perceberia de imediato que as coisas
não estavam bem comigo. Para evitar perguntas
não ia vê-lo. Depois do almoço às vésperas
do Natal mal falara com ele. Apenas
telefonava dizendo que estava em férias fora
de São Paulo e depois dizendo que estava com
muito serviço. Inventava mil desculpas. Sei
que ele estava percebendo que eram apenas
desculpas, mas não queria que me visse tão
caída, tão desiludida. Quanto mais
desanimada eu ficava mais me afastava dele até
não telefonar mais. Minha mãe havia proibido
nossos encontros, ameaçando coloca-lo para
fora de casa se soubesse que nos víamos.
Estávamos
perto do
carnaval ; com ele as minhas esperanças de
encontrar logo qualquer trabalho. Não me
importava ganhar menos, não me importava
voltar a ser auxiliar de escritório. O tempo
mostraria minha competência e seria
promovida. Já havia passado por momentos
piores antes. Tinha certeza que conseguiria
novamente subir por meus méritos
profissionais.
Di
e eu não gostávamos de brincar carnaval.
Ficamos em casa assistindo aos desfiles pela
televisão.
Era
domingo e eu ansiava pela chegada da quinta
feira pois tinha entrevista marcada numa
firma. Já havia feito um teste e faltava
apenas a entrevista para saber se seria
aprovada e contratada .
Por
volta de 23 horas tocou a campainha. Qual não
foi minha surpresa quando, ao abrir a porta
dei de cara com meu primo Orpheu e sua esposa
Ana. Fiquei muito feliz. Era a primeira vez
que iam ao meu apartamento. Desde que sai de
casa estivemos juntos em algumas ocasiões mas
não nos visitávamos.
Nos
abraçamos e logo notei que apesar da alegria
em me ver ele estava estranho. Tão logo
terminei de servir o café veio a bomba:
-Neusinha,
te trago uma notícia não muito agradável.
Seu pai está internado. Precisava te avisar
mas só pude faze-lo agora.
A
princípio não me dei conta da gravidade da
situação. Meu pai já havia sido internado
inúmeras vezes. Não era novidade para mim.
Mas havia qualquer coisa em sua voz que me fez
cair na realidade. Fui invadida por estranha
sensação de perda e em seguida uma tristeza
muito grande. Sentei e ouvi.
Meu
pai estava internado faziam sete dias ou mais.
Tivera mais uma trombose. Na anterior o médico
havia avisado da necessidade de uma nova
cirurgia para desobstruir veias e talvez um
transplante de alguma mais afetada. Ele não
fez . Agora não havia mais como ser feito.
Estava muito debilitado, muito fraco. Seu
estado era gravíssimo com poucas chances de
sobrevivência e caso esta ocorresse, teria as
pernas amputadas pois
estavam gangrenadas.
Eu
olhava para ele incrédula. Como pudera
acontecer em tão pouco tempo? Por que não me
avisaram antes? Por que só agora? Perguntas e
mais perguntas se formavam na minha mente mas
só conseguia perguntar por que só agora
me avisavam apesar de já saber qual
seria a resposta.
Minha
mãe não deixou ninguém me avisar. Proibiu a
todos que o fizesse. Brigou com quem tentou
conseguir meu endereço. Devido à gravidade
do estado dele, meus primos resolveram
enfrenta-la para tentar ao menos me fazer vê-lo
com vida uma ultima vez. Os médicos o haviam
desenganado e prepararam a família alertando
que não teria muito tempo de vida. Talvez só
algumas horas.
Pela
primeira vez na vida senti ódio. Um ódio
mortal e imenso por aquela que me gerou. Tive
a certeza: nunca me amou. Quem ama, por mais mágoa
que tenha da pessoa amada não age como ela
estava agindo naquela circunstância.
Troquei
rapidamente de roupa e saímos. Di foi junto
apesar de saber que seria um problema a mais
que teríamos para enfrentar. Ao menos naquela
hora ele estava a meu lado.
Chegamos
rápido ao Hospital São Camilo. Toda a família
estava lá. Logo na entrada fui prevenida pelo
irmão do Orpheu que teria problemas com minha
mãe. Ela já sabia que eu fora avisada e
estava a caminho. Sugeriram inclusive que eu
subisse sozinha. Não tive tempo nem de
retrucar. Ela descia as escadas e nos viu lá.
Começou a gritar, mandando que fossemos
embora. June, esposa do meu primo, psiquiatra
exercendo a profissão usou de toda a sua
energia e psicologia para terminar com aquela
cena ameaçando pedir medicamentos que a
deixariam dopada caso ela insistisse em
continuar com aquele escândalo.
Diante
de tal ameaça ela calou-se. Subi rapidamente
não dando atenção
aos olhares reprovadores e enfurecidos
dela. Entrei no quarto. Meu pai parecia outra
pessoa. Havia envelhecido 20 anos em 3 meses.
Tive dúvidas se realmente era ele.
Acho
que sentiu minha presença. Seu olhar estava
triste. Seus olhos fitaram os meus e falou com
uma força que já não tinha:
-
Agora você vem!? Só agora? E virou a
cabeça para o outro lado.
Pedi
que me perdoasse, falei que não sabia da sua
doença mas não podia explicar o porque da
minha ausência. Ele jamais saberia. Talvez eu
até contasse, um dia, se toda a previsão dos
médicos estivesse errada. Tinha tanta esperança
nisso! Beijei-o com medo de machucar seu
rosto. Estava tão frágil, tão pálido; seus
lábios não tinham cor. Seus cabelos, poucos
e muito brancos não tinham brilho. Não me
deixou mais ver seus olhos. Devia haver muita
mágoa neles. Não olhou mais para mim.
Pediram
que saísse do quarto. Normas hospitalares.
Como se nessas horas elas fossem importantes!
Saí
e conversei com minhas tias. Estavam lá,
tristes, abatidas mas com gestos de carinho .
Não sei até que horas fiquei lá. Tentei vê-lo
outra vez mas não consegui. As tais normas!
Visitas só na tarde seguinte.
Fui
para casa entorpecida. Não lembro de ter
feito alguma coisa. Parecia estar vivendo um
pesadelo e queria apenas acordar.
Na
tarde do dia seguinte fui ao hospital as 16 hs.
Muita gente estava lá tentando levar conforto
e esperança. Entrei no quarto por minutos,
mas disseram que ele dormia. Falei
com amigos, conhecidos, parentes. Todos
muito tristes.
Ele
sempre fora muito querido. Fora diretor
no Sindicato da Telefônica em SP além
de gerente em uma grande imobiliária .Fez
também muitos amigos com a firma. Era
respeitado pelos concorrentes. Sempre foi
honesto, sincero e cordial. Não lembro de
alguém que não gostasse dele.
As
17:30 alguém pegou-me pelo braço e levou-me
até a capela do hospital sugerindo que rezássemos
um pouco. Aceitei sem dizer uma palavra.
Continuava achando que tudo era apenas um
sonho mau. Que acordaria logo e ver que tudo
aquilo não tinha acontecido.
Havia
um padre rezando uma missa. Pedi muito a Deus
que o salvasse. Eu, que sempre relutara em
pedir algo a Deus, o fiz, com toda a força e
fé que julguei mortas em mim. Eu não poderia
viver sem ele. Precisava recuperar o tempo que
fiquei sem vê-lo. A missa acabou e voltamos
ao saguão superior do hospital.
Assim
que cheguei percebi que algo muito grave
estava acontecendo. Minhas tias choravam.
Minha mãe não estava lá. Corri para o
quarto desviando de todos que tentavam me
segurar. Abri a porta.
Havia
pelo menos três médicos lá dentro. Meu pai
estava no chão e eles tentavam reanima-lo. Um
deles na massagem cardíaca e respiração
boca a boca enquanto o outro aplicava uma injeção.
O terceiro médico aplicou um choque elétrico
para tentar fazer seu coração bater
novamente. Eu vira aquelas cenas mil vezes em
filmes. Sabia o que faziam e porque . Mas seu
corpo não respondia.
Fiquei
petrificada. Queria fugir mas não conseguia
me mover. Olhava os médicos , olhava meu pai
e pedia em silencio que voltasse. De nada
adiantou todo o esforço e toda a luta deles.
De nada adiantaram os meus pedidos. Ele se
foi. Sem um gemido, sem uma palavra, sem um
suspiro.
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Meu
irmão me tirou dali. Ele chorava. Eu não. Não
conseguia derramar uma lágrima. Estava seca.
Meu coração tinha ido com ele. Lú me abraçava
e perguntava:
-
O que vamos fazer agora? Como vamos ficar sem
ele?
Não
tinha respostas para dar, não tinha o que
falar. Não queria estar ali. Começaram as
condolências. Todos me abraçando, tentando
me confortar, me chamando de coitadinha. Eu não
era coitadinha e nem queria ser. Queria fugir,
sair dali, respirar, ficar só. Pensar. Curtir
minha dor e chorar.
Alguém
teve a idéia de tentar aproveitar o momento
para fazer a reconciliação entre minha mãe
e eu. Que idéia ! Que momento infeliz para tentar tal coisa.
Levaram-me
até ela. Estava prostrada numa sala quase
escura. Os olhos inchados de chorar, um deles
com derrame. Tivera um glaucoma talvez por
causa do que passara naqueles dias.
Sentei
ao lado dela. Não houve abraços, beijos,
nada. Nenhum gesto de união. Nem dela, nem
meu. Apenas o pranto pela morte dele. Depois,
perguntas práticas. Quem estava cuidando dos
papéis, do sepultamento, de comunicar aos
parentes e amigos distantes? Perguntei se
precisava de algo, no que podia ajudar.
Não precisava, não queria nada.
Fui
embora dali. Precisava ir. Queria chorar mas
as lágrimas não vinham. Era um outro eu que
vivia aquilo. Fiquei perambulando pelo
hospital até liberarem o corpo de meu pai.
Ajudei a vesti-lo. Éramos só o enfermeiro e
eu e ele foi bondoso comigo me deixando ficar.
Eu estava quebrando regras mas ninguém
saberia. Fui eu quem abotoou sua camisa e
arrumou seus cabelos. Fui eu quem amarrou seus
sapatos. Fiz tudo com muito carinho, como se
cuidasse de uma criança indefesa.
Mas não conseguia extravasar a dor que
sentia.
Fui
para casa. Tomei um calmante e dormi. Acordei
na madrugada.
Sabia que o velório seria no próprio
hospital . Estava lotado. Gente que eu não
via desde criança . Gente que eu não
conhecia. Pessoas falando outros idiomas.
Castelhano, inglês. Todos os parentes, até
os mais distantes, compareceram. Ex-colegas
dele. Ex-políticos famosos. Era muito
querido. Estavam todos sentidos. De minha
parte , tinha só Di e Lúcia que ficou a meu
lado o tempo todo.
Na
hora de seguirmos para o cemitério estava
caminhando ao lado de Di para nosso carro
quando meu irmão avisou que minha mãe estava
mandando que eu fosse no carro com ela. Ela não
pediu. Ela nunca pedia. Mandava . Não se
importou em saber se eu queira ou não.
Mandou! Até naquela hora. Não contrariei. Não
tinha forças para contrariar. Fui!
A
fila de carros que seguia o cortejo era
enorme. Mais de 200 veículos seguiam o carro
da funerária.
Houve
missa de corpo presente na capela do cemitério.
Teve que ser na parte externa. Não caberiam
todos dentro da capela. De lá até
campa da família, segui atrás do caixão
de meu pai. Sozinha. Agora as lágrimas caíam
sem parar. Rolavam pelo meu rosto e se perdiam
pelo caminho. Só agora conseguia chorar. Mas
estava só. Ele a minha frente e eu seguindo
seus últimos passos. Havia tanta coisa a ser
dita que nunca mais o seria! Tanto perdão a
pedir, tanto carinho a dar. Só que o tempo
havia acabado. Não existiria uma segunda
oportunidade.
Ele
se foi. Sem um olhar, sem um adeus.
Simplesmente partiu para nunca mais voltar. E
eu fiquei só. Perdi meu apoio, meu herói,
meu amigo e o único porto seguro que sempre
tivera. Perdi meu pai e não tenho nem a
lembrança de seu último olhar.
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